
FÓRUM DO CAÇADOR
Os textos aqui publicados tem por finalidade estimular e colaborar na difusão de ideias e pensamentos, integrando a comunidade brasileira de pilotos de caça e preservando suas tradições e seu espírito de corpo, bem como promovendo a interação entre seus componentes e a Força Aérea Brasileira.
A partir do número 108 os artigos do FÓRUM DO CAÇADOR não são mais destacados nesta seção. Estão publicados no próprio ABRA-PC Notícias, e ali podem ser acessados.
Os artigos abaixo, destacados dos ABRA-PC Notícias até o número 107, estão listados por ordem decrescente de publicação (do mais recente para o mais antigo).
A AVIAÇÃO DE CAÇA E O DESENVOLVIMENTO DA FORÇA AÉREA
(Fórum no 28, abr 2010)
A tão propalada e incensada "polivalência" do Ministério da Aeronáutica, e que durou mais de 60 anos, com certeza foi fruto de uma decisão política ocorrida à época de sua criação. Os ideólogos do Poder Aéreo e da Força Singular, à época, provinham todos de Arma, Serviço ou Corpo de Aviação do Exército e Marinha, cuja missão primordial era dar apoio de fogo às Forças Superfície (aumento do alcance de tiros dos canhões), a observação do campo de batalha e o transporte de pessoal/material. Em suma, "prestação de serviços", sem personalidade e identidade própria.
Os Aviadores de então, estimulados pela Doutrina do Poder Aéreo de Douhet, Mitchell e Trenchard, que prosperou no pré e pós IIa Guerra Mundial, sonhavam com a unificação dos meios aéreos militares sob única administração, de forma a permitir o emprego da capacidade bélica das aeronaves, sob um mesmo Comando e com missão caracterizadamente independente. Pensavam em oferecer solução final aos conflitos armados através da intervenção, pelo poderio bélico dos meios aéreos, de forma concentrada: a Aeroestratégica. E, pensavam, ainda, na supervisão e controle do espaço aéreo, negando seu uso aos meios aéreos do inimigo através da Defesa Aérea.
Àquela época, não bastava aos fundadores desenvolver e disseminar essa idéia, até ali quase acadêmica. Havia que se buscar caminhos chamados “politicamente corretos”. Havia que se formatar essa nova Organização com elementos, cujo "somatório de fatores políticos", garantisse seu aparecimento na balança do Poder Nacional, com um peso específico capaz de permitir que o processo decisório, no domínio do Poder Militar, viesse a receber (e ser aceito) um interveniente até ali inexistente, e que viria a ser o Poder Aéreo.
Com plena consciência de que cabia amealhar tudo que fosse pertinente (mesmo que discutível ou de valor marginal), os fundadores agregaram a esse novo organismo, em princípio, “tudo que voa ou que permita os aviões voar”... E puseram tudo no mesmo prato da balança. E aí, explorando inteligentemente possíveis dissensões e rupturas institucionais ou desconhecimentos de causa e/ou tecnologia, agregaram à sua tese a aviação civil e o transporte aéreo (totalmente incipientes), os aeroportos, as telecomunicações aeronáuticas, a infantil indústria aeronáutica(?), o aerodesporto (aventureiro à época), etc.
Tentativamente amalgamaram elementos, até dispares entre si mas, que, de alguma forma (mesmo longínqua), relacionavam-se com os aviões, sua operação e seu “habitat”. Em tentando “costurar” essa estranha estrutura, com o objetivo de adquirir um peso específico politicamente correto, talvez o ato menos importante (ou menos urgente) era fazer sobressair, desse cadinho em efervescência, o segmento da Aviação Militar, pois, ainda fracionada entre o Exército e a Marinha teria, primeiramente, que vestir o mesmo uniforme para, depois, aparecer no cenário como o grande maestro dessa obra em gestação. E essa maestria originava-se, muito mais, da intimidade com a aventura e a coragem de voar, do que da respeitabilidade política perante a sociedade e o Governo.
Por conseqüência, com toda essa panóplia de ingredientes a agregar e tornar una, a definição da Força Aérea, e de seus elementos constitutivos, recebeu menor urgência. Cabia sim, e prioritariamente, buscar o peso político correto que permitisse atingir o grande objetivo: unificar a aviação e criar administração especificamente dedicada aos assuntos aeronáuticos. Os assuntos e requisitos militares em outra fase: após essa conquista!
Como conseqüência dessa desconformidade, voltaram-se os nossos primeiros ideólogos à difícil tarefa de extrair (ou impor) conceitos que permitissem conceder à nova Organização, antes de mais nada, uma “capacidade de durar”. Por essas razões, difícil foi (e tem sido) a tentativa de encaixar a Força Aérea Brasileira no contexto de uma organização que, primordialmente, devia retratar a mencionada "Polivalência de Encargos" muito mais civilistas (e sócio-econômicos) do que militares, para se tornar "politicamente correta”. E aceitável... como acabou vindo a ser, quando criado o Ministério da Aeronáutica (MAER) em 1941.
Mais difícil ainda, foi estruturar o Ministério da Aeronáutica para fazer frente a todos os seus compromissos de caráter e interesse sócio-econômico (aviação civil, indústria do transporte aéreo, indústria aeronáutica, administração aeroportuária, telecomunicações, etc.) conjugadamente às imposições do segmento militar, cuja destinação supostamente, era uma só: o emprego bélico (?) do Poder Aéreo. A "délivrance", umbilicalmente ligada à imprescindível urgência de surgir e se impor, pressiona os nossos criadores a realizar, antecipada e imediatamente, algumas ações voltadas ao desenvolvimento e a integração: é a expansão do CORREIO AÉREO NACIONAL (CAN) e sua saga, de grande agrado social e político e, mesmo, do público interno.
Aqui é que os nossos “ideólogos de plantão” buscaram, então, uma definição de Poder Aéreo que abrangesse, justificasse e conviesse ao cenário que a nossa (construída) herança histórica nos impôs: unicidade, multidisciplinaridade e prestação de serviços. Muito antes de qualquer outra coisa. A destinação militar, como até então, "a posteriori"...
E foi nesse cenário, ainda envolvido pelas "dores do parto", que o Ministério da Aeronáutica recebeu, cumulativamente, a difícil tarefa de recrutar e montar Unidades Aéreas de Combate para participar das Operações de Guerra: o 1o Grupo de Caça no Teatro Europeu e uma Unidade de Patrulha para operar com a USNAVY, nas operações no Atlântico Sul.
Da forma em que estava organizada a FAB, fazer nascer "do nada" um ESQUADRÃO com suas Esquadrilhas, para cumprir missões de combate., foi o primeiro desafio profissional adjudicado ao recém nascido MAER e repassado à Aviação de Caça Brasileira e à Patrulha. E o fizeram bem, a despeito da inexistência da necessária "expertise".
A Aviação de Patrulha, organizada nos mesmos moldes que a Caça durante a guerra (USBATU), teve alguma experiência como Unidade de Combate, no patrulhamento da costa brasileira, tendo sido seu treinamento de vôo transferido a posteriori para a AVIAÇÃO de TRANSPORTE, com abandono total da parte militar (de vez que era ligada ao Brig EDUARDO GOMES, para quem o CAN era a parte principal da Aeronáutica e totalmente dedicada aos interesses sociais).
Aqueles foram os primeiros passos para o direcionamento da Aeronáutica Militar Brasileira aos rumos profissionais: montar uma estrutura operacional capaz de assumir tarefas de combate específicas em um contexto de guerra. Organização essa, totalmente desconhecida, tanto quanto à sua forma como quanto ao seu desempenho em conjunto e quanto à sua doutrina de emprego e uso de armas aéreas. Repentinamente, homens e máquinas, desconhecidos entre si, foram amalgamados e unidos com a soldadura férrea proveniente do calor do combate. Irmanados em torno do cumprimento das missões de guerra, esses homens ainda se dedicaram a consolidar, solidificar e materializar essa estrutura, até então desconhecida entre nós, para fazer surgir o 1o Grupo de Caça, nos moldes que até hoje sobrexiste. Sua vida e resultados de campanha já são páginas da História da Aviação de Caça e do próprio Brasil, às quais rendemos nossas homenagens.
Para a multifacetada estrutura do MAER, as decorrências (ou conseqüências) para o segmento militar, vieram a se fazer mais profundamente sentidas com a chegada do 1o Grupo de Caça de volta ao Brasil e com o início de seu apostolado na angulação organizacional, operacional, administrativa, doutrinária e, principalmente, na formação das novas levas de pilotos de caça, atividade que transformou os Veteranos em lídimos mestres.
É durante esta fase de implantação do 1o Grupo de Caça no território pátrio que surgem as exigências mais simples (até então desconhecidas) ao novo Ministério: armamento/munição, equipamento de vôo, medicina de aviação, normas e procedimentos, disciplina e segurança de vôo, formaturas de emprego, operação em equipe, trabalho de grupo, combate aéreo, uso das armas aéreas, organização para o combate, etc. Todas essas necessidades foram colocadas ou, pelo menos, abordadas pela unidade-mater, que foi o 10 Grupo de Caça. Independentemente do nível da resposta que a Aeronáutica pudesse vir a oferecer... a repercussão foi inevitável.
A Força Aérea (?) de então, desconhecia, in totum, o significado do emprego das plataformas aéreas em combate e, principalmente, o uso de seu armamento de bordo, (ar-ar e ar-terra). Todas as exigências propostas visavam manter a Unidade em estado operacional, continuando a cumprir as missões que os Veteranos inferiram como sendo de seu perfil e, principalmente, buscando conquistar excelência no processo de formação de Pilotos de Caça e na preservação do espírito e doutrina, forjados nos céus do Panamá, Estados Unidos e, principalmente, Itália.
A Aeronáutica, "sacudida" pelo choque de cultura imposto pelos Veteranos acostumados ao uso de seus aviões, de suas armas e ao "cheiro de pólvora em suas naceles", recebe os primeiros impactos voltados para a profissionalização. Esse choque foi tão acentuado, que não seria impróprio dividir a História Militar da Aeronáutica em ANTES e DEPOIS do 1o Grupo de Caça! O período era 1945/1950.
Para observadores atentos e mais avisados, que vivenciaram os cruciais momentos da recepção e integração da galante Unidade guerreira à inconsistente estrutura organizacional existente, é aqui que os Veteranos se esmeraram. E em que venceram sua verdadeira "guerra".
Foi em função das então tituladas "exigências" oriundas desse chamamento para implantar estruturas voltadas para o exercício das atividades militares, bem como fixar o ideário e a doutrina "capazes de durar e permanecer imune aos homens" é que o 1o Grupo de Caça demonstrou, com clareza e perseverança, o verdadeiro sentido do cumprimento de missão. Concomitantemente, devotou-se o 1o Grupo de Caça a formar aqueles que os seguiriam: o Estágio de Seleção de Pilotos de Caça (ESPC). Surgido consensualmente entre os Veteranos, transformou-se em obsessiva meta a atingir e veio a resultar em uma verdadeira escola de combatentes, não só de "airmanship" como de elaboração de métodos/processos/padrões, assim como de doutrina, profissionalismo e de disciplina.
Páginas e páginas teriam que ser escritas para descrever o quê e como foram essas várias centenas de dias em que todos, sem exceção, se consagraram à conquista dessas metas. "SANGUE, SUOR e LÁGRIMAS" seria o melhor título para esse capítulo da História da Caça e da FAB, apesar do chavão.
Esforços inauditos de Instrutores e Estagiários, Comandantes e Comandados superam barreiras restritoras do progresso e que, em uníssono, aquela parcela da Aeronáutica (que se titulava militar), impôs - no bom sentido - a adoção de uma nova atitude para com a Organização. Estava aberto o caminho para a Aeronáutica: romper com o passado e galgar o primeiro degrau da longa e íngreme escalada na direção da profissionalização. E é, a partir desse momento, que passamos a nos ver como HOMENS de ARMAS, SOLDADOS DO AR! Diferentemente de outrora...
As decorrências positivas foram imediatas e de valor incalculável. Surgem, das mentes e das mãos dos Aviadores de então, os primeiros documentos reguladores da atuação profissional e operacional: os Programas de Instrução e Padrões de Eficiência (PIPE), os Padrões de Eficiência para Computo de Porcentagens ( ar-ar e ar-solo), Padrões de Instalações/Equipamentos para as atividades de tiro ar-ar/ar-solo, (alvos aéreos rebocados, alvos de tiro terrestre bombardeio e foguetes, estandes de emprego e de armas portáteis), os Padrões para Vôo por Instrumentos (acadêmico e aéreo), todos elaborados no EMAER, sob a "batuta" da 3a Seção e, concomitantemente, a famosa coletânea de NORMAS PADRÃO de OPERAÇÕES (NPO) e depois NPA, que regulamentavam todos os procedimentos da Unidade Aérea.
Da mesma forma, surgiu a documentação acadêmica para o cumprimento dos Programas de Instrução de Vôo (PIVO) e de Instrução Terrestre (PITE). Os Manuais de Vôo (MAVO), os Manuais de Bolso (MABO), logo em seguida titulados Manuais do "Coça Bago" (MACOB), assim como o Manual de Ordens de Instrução (OI) e o Manual de Vôo por Instrumentos (MAVI).
A formação profissional pós-Escola de Aeronáutica (nas Unidades Aéreas), era quase um processo "boca-a-boca". Transformou-se, vigorosamente, agora estimulada pelas ações do Curso de Tática Aérea (com alguns Veteranos de Guerra como Instrutores), visando à sistematização, metodização e a normatização. Eliminava-se o empirismo e balizaram-se as iniciativas individuais. Os processos de avaliação e seleção acadêmica passaram a tecnificação e racionalização, antes inexistentes.
Estabelecidas as bases para esse processo de iniciação, e à medida que as novas gerações ascendiam ao palco dos acontecimentos operacionais, inovações e atualizações foram adicionadas, todas elas frutos, não só da prática operacional como da aquisição de novos conhecimentos decorrentes das iniciativas pessoais, ou até de cursos do exterior. Passam-se algumas décadas em que o progresso profissional segue conforme o desiderato inicial: em progressão... Pressionada pelos fatos irretorquíveis, a Aeronáutica regulamenta o funcionamento das Unidades Aéreas de Combate e Transporte através da Portaria 295/GM3-19 Set 52. Um marco na conduta operativa-administrativa da Força e patrocinada pela administração NERO MOURA.
Porém, um novo e enorme passo diferencial foi dado, quando a Aviação de Caça - em primeira iniciativa no país - abandona suas aeronaves a pistão com herança guerreira, e ascende ao cenário da aviação a jato (GLOSTER F-8) de emprego militar. Novos desafios para a Aviação de Caça, novos patamares para a Força. O período era de 1953/1955.
Na "esteira" dessa saudosa máquina vieram os F-80, T-33, AT-33 e AT-26 que ocuparam longamente as Unidades de Treinamento e Emprego, e permitiram a formação de várias centenas de novos Pilotos de Caça.
Além disso, e por conseqüência, algumas Unidades Aéreas de Emprego misto vieram ao cenário operacional da Força. Tendo como base a estrutura e conceito de emprego das Unidades de Caça: criaram-se os Esquadrões de Reconhecimento e Ataque (ERA) e, após os Esquadrões Mistos de Reconhecimento e Ataque (EMRA). Ao mesmo tempo, surgem os procedimentos de vôo por instrumentos para os jatos, até então inexistentes, padronizados pela então Departamento de Eletrônica e Proteção a Voo (DEPV). Porém, ainda novas e profundas mutações ocorreriam até 1973.
A Aviação de Caça, agora composta por um reduzido grupo de Veteranos e uma seleta parcela de seus "alunos”, dedicar-se-á à novel missão de atingir a base da troposfera e a alta velocidade. Era a Caça da modernidade: no domínio sônico.
Acrescidas às exigências básicas anteriores que já tinham sido satisfeitas, o vôo em grandes altitudes e velocidades trouxe suas demandas peculiares. Esses novos parâmetros compeliram a novas atitudes quanto ao uso do espaço aéreo, do controle do tráfego aéreo, das telecomunicações, da meteorologia em altitude e suas correntes de jato, dos níveis de congelação, da cartografia para a navegação em grande altitude, dos procedimentos para o vôo por instrumentos, etc.
A infraestrutura operacional, as pistas e o FOD, as fontes de força, a pressurização dos habitáculos, o combustível JP-1, as tubeiras e os finais quentes, a inércia dos motores, as elevadas velocidades de aproximação para o pouso, o equipamento de vôo dos pilotos e os capacetes protetores, as cadeiras de ejeção, a sobrevivência em altitude, o estrondo sônico e as ondas de choque, o alto consumo de combustível, as alternativas para a navegação em rota, a infraestrutura de apoio e os "algo mais", passaram a compor o dia-a-dia dos caçadores. E da FAB.
Os novos sistemas de visada, a nova geração de armas e munição, a aerodinâmica, os materiais, a engenharia motorística, os efeitos das altitudes e velocidades, etc. passaram ao cotidiano dos Pilotos de Caça. E a isso somadas as novas habilidades de pilotagem exigidas para desempenhar as tarefas de emprego do armamento, com nova plataforma e em novo cenário.
A todos esses estímulos a Força e a Aviação de Caça reagiram, aprendendo. E, mais ainda, disseminando e injetando no Sistema suas novas necessidades, compelindo a que se obtivessem respostas adequadas aos requisitos, ainda não totalmente atendidos pelo crescimento. Assim, premida pela Aviação de Caça e pelas outras Unidades Aéreas já criadas, novos parâmetros para o funcionamento operacional militar foram sendo agregados, produzindo um "upgrading" natural a toda a Força Aérea.
Agora, um novo turbilhão envolve o MAER, quando a FAB ingressa no domínio sônico e bisônico e, consequentemente, o Brasil também: são incorporados à Aviação de Caça os MIRAGE III e F-5E. A época era 1973/75.
Esse novo domínio, em que pese o fato de já estarmos freqüentando a faixa próxima da velocidade do som, interveio ponderavelmente na formação da consciência dos combatentes: essa arena impunha novos conhecimentos, procedimentos e habilidades. Além de, consequentemente, novos meios/sistemas/ equipamentos /treinamento. Além disso, esses recém-incorporados meios aéreos permitiram, finalmente, adentrar àquela missão que, por ser única, dedicada e independente representa o apanágio da Aviação de Caça: a defesa do espaço aéreo brasileiro.
E, mercê desses acontecimentos, simultaneamente, inicia-se a implantação do Sistema Integrado de Controle de Tráfego Aéreo e Defesa Aérea (SISDACTA). Mais um degrau acima, na nossa escalada ao desenvolvimento profissional. Graças à Aviação de Caça. Moderniza-se e automatiza-se o controle do Tráfego Aéreo e implanta-se um dos primeiros sistemas integrados Defesa Aéerea (DA) + Controle de Tráfego Aéreo (CTA) do mundo.
A época era de 1980 e as premissas de emprego do Poder Aéreo ampliaram-se. A necessidade de cumprir missões de intrusão a baixa altura, com razoável carga de destruição e superior capacidade de acertos, compele a fazer nascer um vetor ainda não incorporado à nossa frota de combate. Em substituição ou em complementação às aeronaves que cumpriam missões de ataque a alvos de superfície com base em sistemas de visada tradicionais, surge a aeronave A-1 (AMX), dotada de toda a automatização exigida pelos vetores modernos.
Atribuída à Aviação de Caça, guarnecemos todas as posições da estrutura do processo decisório e técnico da implantação do A-1. E realizamos a sua incorporação e assumimos os encargos de sua entrada em serviço, adicionando novos "inputs" de desenvolvimento à Força, como um todo. Para essa operação, a Aviação de Caça "mergulhou" na gestão de sistemas complexos de bordo e sistemas automáticos de navegação/ataque.
A citada introdução em serviço das aeronaves supersônicas compeliu a Aviação de Caça (leia-se Força) a uma preparação prévia, não só dos Pilotos, mas - e principalmente - do pessoal de apoio. As ponderáveis modificações incorporadas à microeletrônica, motorização e, notadamente, aos sistemas-de-armas impôs uma elevação geral de nível de conhecimentos técnicos e que trouxe incomensuráveis ganhos para o nosso universo, em geral. Para tanto, cursos no CTA e "in-house" foram ministrados para atendimento dessas necessidades, com inegáveis ganhos.
Da mesma forma, a Aviação de Caça, com primazia, introduziu a técnica do vôo por instrumentos por atitude (logo aceito e expandido por toda a Força) e a navegação a baixa altura e grande velocidade. O uso dos sistemas de visada e tiro com base no radar, as técnicas do reabastecimento em vôo, o reconhecimento foto-tático, a navegação e emprego com base em plataformas inerciais. Cada uma dessas novas tarefas, evidentemente, era composta de um aprendizado acadêmico que gerava um natural "upgrading', em benefício do conjunto. Era toda a Força que crescia, com a Aviação de Caça como elemento motriz... Aqui surgem os F-5 Modernizado, os ALX, os AT-29 e como esperado – o FX-2!
A tal ponto chegaram as demandas de atualização e desenvolvimento de conhecimentos, que uma Unidade pioneira destinada à simulação e ao treinamento operacional, com base em sistemas computacionais, teve seu nascedouro agregada a uma Unidade de Caça. Trabalhando em proveito de várias delas, inclusive com aquelas recém-criadas no último "estado da arte", é um patamar mais alto também alcançado...
"Pari-passu" com a operação com base nesses novos sistemas, surgem também o emprego de novas técnicas de combate aéreo, da interceptação e sua atuação integrada com o sistema de vigilância/defesa, as operações com qualquer tempo, etc. Tudo fazendo inserir a Força em domínio mais atualizado, através da escalada de modernidade da Aviação de Caça. Era a contribuição continuada à Força Aérea. A ascensão a novos níveis profissionais, portanto, foi o verdadeiro Gaudio da Aviação de Caça. Que sempre o fez sob a égide da busca da EXCELÊNCIA, contaminando a tudo e a todos, praticando a herança herdada dos Veteranos de Guerra.
Se, tentativamente, fosse buscado estabelecer a "curva do aprendizado" profissional global da Força "vis-a-vis" o traçado do crescimento da Aviação de Caça, facilmente concluir-se-ia que aquela curva de aprendizado da Força estava, na verdade, sustentada pelas efetivas conquistas da Aviação de Caça, em todos os tempos.
A bem da verdade é forçado reconhecer que, se a Aviação de Caça - através dessas suas conquistas - propiciou esse crescimento e desenvolvimento do todo, é imperioso que fique claro que estas marcas, de longe, não são conseqüências e/ou decorrências simplesmente do material e/ou dos sistemas e equipamentos introduzidos para o emprego. São, na realidade, frutos de seus HOMENS, sua DOUTRINA, DEDICAÇÃO e ESPIRITO de CUMPRIMENTO da MISSÃO, PROFISSIONALISMO e AMOR À AVIAÇÃO. O que, certamente, terá continuidade através das novas gerações, honrando nossas tradições e heranças e visando o futuro, cada vez mais profissional.
Aqui, é fundamental fazer um retorno às nossas palavras e pensamentos e tentar um fecho com algumas citações para suportar nossas teses, citações essas que têm no HOMEM e na sua MÍSTICA, as origens dessas modificações de atitude profissional.
O PILOTO DE CAÇA
O PILOTO DE CAÇA representa o mais puro dos combatentes individuais, Mestre e Navegador de um dos mais perfeitos e complexos produtos da moderna era industrial-militar.
O Homem-de-Armas de hoje é, cada vez mais, conduzido para se tornar um técnico, um engenheiro subordinado às conquistas tecnológicas e à mecanização da moderna guerra aérea. Mas a ciência não deve se tornar um fim, em si só. Somente um espírito ofensivo, abrigado em um coração destemido, trará sucesso a qualquer avião de caça do mundo, independentemente de quanto desenvolvido seja. A CAÇA
A CAÇA, por definição, é uma arma de elite. Confiando a Pilotos super selecionados, aviões de preço quase incalculável, concebidos por engenheiros de gênio e executados por conscienciosos e esmerados especialistas, criou-se um instrumento de extraordinária eficácia, mas também de extrema delicadeza. Instrumento afiado como navalha, que precisa ser utilizado por mãos ao mesmo tempo firmes e sensíveis. Se usado como faca de açougueiro, não se deve espantar em vê-lo embotado.
Ten. Gen. ADOLF GALLAND Comandante-Chefe da Caça Alemã (1939-1945)
"A CAÇA é um ESTADO de ESPÍRITO!"
PROJETO F-X2
ALGUNS COMENTÁRIOS A RESPEITO NA ANTEVÉSPERA DA DECISÃO
(Fórum no 27, fev 2010)
Este artigo está sendo (foi) escrito no dia 21 de outubro de 2009, na antevéspera da decisão sobre o vencedor do chamado Projeto FX-2.
Nesses últimos meses tenho sido questionado com bastante frequência a respeito do que eu acho desse processo de seleção do mais novo avião de caça que o Brasil vai comprar: quem vai ganhar, qual dos três aviões é o melhor etc. Companheiros da Força, amigos militares de outras forças, civis conhecidos e por vezes até desconhecidos (é impressionante a atração que o avião, em especial o avião de caça, tem sobre o homem comum!), eventualmente sabedores da minha condição de piloto de caça na reserva, todos querendo saber a minha opinião a respeito.
Eu sempre desconversei, no sentido de não tumultuar mais ainda um processo já por demais tumultuado, dentro da filosofia popular que diz que “peru de fora não se manifesta”! Um dia nós ainda vamos aprender a fazer como a Marinha, que compra 5 submarinos, um deles nuclear, troca de portaviões, compra aviões de caça, tudo com muito pouco ou quase nenhum ruído na mídia!
A todos, eu dizia que os três aviões eram muito bons, que todos atendiam as nossas necessidades operacionais, e que o mais importante seria aquilo que o Brasil iria ganhar além dos aviões. Dizia, ainda, que independentemente da minha opinião, o parecer que fosse assinado pelo oficial responsável pela equipe técnica de avaliação eu assinaria embaixo porque, conhecedor do perfil e do profissionalismo desse oficial, tinha a certeza de que o que ele indicasse sem dúvida nenhuma seria a melhor alternativa a ser adotada pela FAB e pelo Brasil.
Naturalmente que tenho uma opinião em relação ao assunto e em respeito aos amigos que me questionaram em tempos atrás, resolvi colocar minhas considerações no papel neste momento, na antevéspera da decisão a ser tomada, mas somente tornando-a pública após o anúncio do projeto vencedor. Se não o fiz no passado para não tumultuar o processo, faço-o agora, antes da decisão, para não ser contaminado ou influenciado pelos comentários que certamente irão surgir e para não dar uma de “engenheiro de obra pronta”, figura que sempre abominei ao longo da minha carreira.
Naturalmente que faço isso com a irresponsabilidade da reserva, por não ser conhecedor de qualquer aspecto das propostas apresentadas e baseado apenas no sentimento e experiência angariados em mais de trinta anos de serviço dedicados em especial à aviação de caça do Brasil. Claro que é fácil falar quando não se tem a responsabilidade de uma decisão, mas dentro do mais puro espírito da “Tribuna Livre do Piloto de Caça” aí seguem minhas considerações.
1 - QUAL DOS TRÊS AVIÕES É O MELHOR ?
Para quem voa Mirage 2000, F-5E modernizado, A-1A/B ou AT-29 “é ruim” dizer que um Rafale, um F-18E/F ou mesmo um Gripen não atendem às nossas necessidades operacionais!
Costumo comparar a situação com aquela em que um proprietário de um Monza 87, com o dinheiro da poupança no bolso, procurando um automóvel novo para comprar, recebeu ofertas de um Peugeot/Citroen último tipo, de um Cadillac também último tipo, bem como de um Volvo não menos atualizado; é difícil para o cara dirigindo aquele Monza antigo dizer que qualquer dos carros ofertados não atendem a sua necessidade de transporte! Entretanto, se além do automóvel um fornecedor pouco ou nada oferece, um outro dá um ano de seguro total gratuito e o terceiro oferece, além do seguro gratuito, dois anos de assistência técnica e de peças de reposição também gratuitos, com quilometragem livre, agora nosso bravo proprietário do Monza já teria algumas vantagens adicionais em escolher um ou outro automóvel.
Ou seja, o que menos importa nessa competição é o avião, uma vez que todos, com certeza, atendem às nossas necessidades operacionais; o que importa mesmo é o que o Brasil vai receber ALÉM dos aviões!! A diferença está aí e, nesse sentido, estão certíssimas nossas autoridades que dizem que a transferência de tecnologia é que será o fator primordial para a decisão, muito embora essa expressão – transferência de tecnologia – mereça algumas considerações que serão feitas ao final.
Mas o que importa no momento é ressaltar que o fator de decisão não deve ser o avião, mas o pacote de benefícios que o Brasil irá receber além da aquisição pura e simples das aeronaves. A partir deste raciocínio, mesmo o homem comum, principalmente aquele ligado às coisas da aviação, já tem condições de fazer um prejulgamento considerando o histórico dos três países envolvidos na disputa.
2 - FRANÇA (RAFALE), EUA (F-18E/F), SUÉCIA (GRIPEN NG)
Novamente falando, todos os comentários a seguir eu os faço irresponsavelmente a partir da experiência acumulada ao longo da carreira, uma vez que não tive acesso a qualquer informação pertinente à disputa, além daquelas que se tornaram públicas pelos meios da imprensa. Minha experiência com os franceses é a pior possível, vem de longa data, desde o início da minha carreira como piloto de caça, e a não ser que de alguma forma nossos amigos gauleses tenham mudado radicalmente e expressado isso nos documentos apresentados (o que também não garante nada!), minha opinião é de nem levá-los em consideração ab initio!
Ela se inicia com a comparação das publicações técnicas vindas com o Mirage III com aquelas que trouxemos junto com os nossos F-5. Basta pegar as TO-1 de ambas as aeronaves e se verá a pobreza das informações contidas na TO do Mirage em comparação com aquelas existentes na do F-5. Tradicionalmente as publicações técnicas francesas pouco informam de importante, em comparação com o nível de informações contidas nas publicações americanas, por exemplo. Gráficos de desempenho, gráficos de combate... basta comparar e ver a diferença entre elas!
Além disso, minha experiência com eles passa pela definição do canhão que equiparia a série das nossas aeronaves AMX. Poucos sabem, mas nossos protótipos de A-1 foram ensaiados com o canhão DEFA 554, uma versão melhorada daqueles canhões que equipavam nossos Mirage III. Pois bem, depois de toda uma campanha de ensaios feita com o DEFA 554, na hora em que fomos colocar nosso pedido de compra para a série, nossos amigos franceses colocaram tanta dificuldade e tanto sobrepreço que, a despeito de todo o gasto que teríamos para ensaiar um novo canhão, saiu mais barato e conveniente trocarmos de armamento e começarmos tudo de novo, com um novo canhão de um outro país que poderia, inclusive, ser produzido no Brasil!
Essa experiência ruim continua com a gestão do contrato da troca dos helicópteros “Puminha” pelo Super-Puma onde, a despeito de contratualmente constar a implantação de um banco de provas do motor, para evitar o tremendo gasto das revisões gerais feitas na França, tivemos que suar várias camisas para convencer nossos amigos gauleses a simplesmente cumprirem as cláusulas previstas contratualmente com que eles haviam concordado e assinado! E saí da logística sem saber se eles efetivamente cumpriram o contrato ou se estamos até hoje mandando nossas turbinas para fazerem revisão geral na França! E falando em logística, só quem trabalhou nessa área para saber o elevadíssimo custo de manutenção dos produtos franceses, quase que inviabilizando, economicamente, a operação desses equipamentos.
Quanto à transferência de tecnologia, bem, basta alguém procurar saber hoje, passadas algumas dezenas de anos, qual é o índice de nacionalização dos nossos helicópteros Esquilos montados em Itajubá para se ter uma idéia da filosofia francesa em relação ao assunto. Um companheiro antigo da Força costuma dizer que a diferença entre o americano e o francês é que o americano pouco ou nada entrega, mas aquilo que ele se comprometeu a entregar ele o faz; já o francês, promete que vai entregar mundos e fundos e, ao final, apesar de compromissado e assinado, pouco ou nada entrega!
Eliminados os franceses restam, portanto, dois competidores.
3 - EUA (F-18E/F) x SUÉCIA (GRIPEN NG)
Ainda baseado na minha experiência de carreira e uma vez mais irresponsavelmente falando, entendo que a solução de menor risco é a americana, enquanto a alternativa que nos daria a maior independência é a sueca.
A solução americana é a de menor risco, uma vez que há centenas de F-18E/F voando em diversos países, com alguns milhares de horas de voo acumuladas, além de ser o avião de primeira linha de combate da marinha americana nos dias de hoje. A versão ofertada é a do Super-Hornet (F-18 E/F) e não a do Hornet antigo (F-18 A/B ou mesmo C/D). Isso nunca tivemos antes, uma vez que os americanos sempre nos ofertaram aviões de segunda linha e que não estavam sendo empregados operacionalmente pelas suas próprias forças armadas.
A FAB já possui longa tradição em operar aeronaves americanas, temos já toda uma cultura operacional assimilada bem como uma completa cadeia logística implantada com nossos amigos americanos do norte. Táticas de combate, canais de suprimento, escritórios de ligação, tudo implantado e funcionando (bem)! Além disso, se olharmos para frente e visualizarmos necessidades futuras para o nosso País, há já uma versão de combate eletrônico dessa aeronave, bem como ela própria é uma versão embarcada que poderia vir a preencher uma eventual necessidade futura da nossa marinha de guerra, com todas as vantagens que isso possa significar para ambas as Forças e para o nosso País.
Como ponto negativo, tradicionalmente nossos amigos do norte não fornecem os armamentos e os equipamentos mais atualizados e que na guerra fazem a diferença! Podemos até tentar, mas penso que dificilmente eles nos cederiam tudo aquilo que desejamos, seja por filosofia política seja pela arrogância típica americana! Entretanto, o pouco ou o muito que conseguirmos obter nas negociações de agora, ANTES da indicação da aeronave vencedora, certamente iremos receber; tradicionalmente os americanos cumprem o assinado em contrato, sem grandes desgastes por parte do contratante.
Se a alternativa americana é a de menor risco, é porque a solução sueca tem um risco maior. E isso é debitado ao fato de que a aeronave ofertada de fato não existe, é um projeto em desenvolvimento, com todos os riscos e custos que isso possa significar. Paradoxalmente, é exatamente por isso – ser um projeto em desenvolvimento – a razão para a maior independência que o nosso País teria ao operar essa aeronave. Por estar em desenvolvimento, poderíamos desde já participar com as nossas empresas em projetos, processos, testes, ensaios, fabricação, etc., nas áreas de nosso maior interesse, nos mesmos moldes utilizados do desenvolvimento da aeronave AMX, com uma grande e marcante diferença, com toda a experiência do que deu certo e do que não deu certo naquele projeto!
Essa é
a única forma de se ter independência, é conhecer o porquê (know-why) das coisas, e não apenas o como fazer (know-how) dessas coisas. É importante ressaltar que a forma de participação nesse desenvolvimento, as áreas em que atuaríamos, os compromissos e documentos que norteariam esse trabalho, tudo que dissesse respeito a isso teria de ser definido e assinado ANTES da indicação do projeto vencedor, enquanto o poder de barganha está conosco; se deixarmos para depois, o poder de barganha passa para o outro lado e só teremos aquilo que ele quiser nos dar!
Quanto ao risco em escolher uma aeronave em desenvolvimento, em minha opinião esse risco é bem reduzido; não podemos esquecer que a versão ofertada (Gripen NG) é uma versão melhorada de uma aeronave já existente e voando em diversas Forças Aéreas no mundo, e que a Suécia é um país com grande tradição e sucesso no desenvolvimento de aeronaves de caça, com soluções pioneiras que, posteriormente, algumas delas se tornaram presentes em outras aeronaves (a aerodinâmica utilizando o duplo delta da aeronave Draken, a superfície canard totalmente móvel usada no Viggen, o trem de pouso principal em tandem e o uso de reverso no motor do mesmo Viggen).
Além do mais, a experiência que tivemos recentemente com os suecos no desenvolvimento da versão de vigilância aérea da aeronave E-99, utilizando o radar Erieye, sugere que teríamos um ambiente de extrema e profícua colaboração entre os dois países e as empresas participantes. Bem, depois de tanto falar, resta ainda a pergunta – qual dos dois projetos seria, em minha opinião, o melhor para o nosso País: o de menor risco (Super-Hornet) ou o da maior independência (Gripen NG)?
O cachimbo deixa a boca torta, assim diz um dito popular. Talvez por ter participado do desenvolvimento da aeronave AMX, por ter percebido as chances enormes que nosso País teve em termos de obtenção de conhecimento, tecnologia, trabalho com elevado valor agregado, etc., por ser um incorrigível entusiasta da indústria nacional sou levado a dizer que, em minha opinião, a melhor solução a ser adotada pelo Brasil é a solução sueca. Já que, por definição, todos os aviões atendem às nossas necessidades operacionais, participar do desenvolvimento da versão NG da aeronave Gripen, com nossos amigos suecos, certamente é a alternativa que maior possibilidade dá de transferência de tecnologia e aquisição de conhecimentos para o nosso País.
E em relação a isso – Transferência de Tecnologia – vale a pena fazer alguns comentários em função de experiências passadas.
4 - TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA : FALÁCIA OU PANACÉIA ?
Ao longo de todo esse processo de escolha tenho ouvido diversos companheiros se manifestarem a respeito da cláusula mandatória de transferência de tecnologia (Off-set) a que todos os fornecedores de alguma forma devem aderir.
Muitos entendem que isso, ao final, de nada vale, pois na prática ninguém transfere conhecimento que custou milhões e milhões de dólares para ser obtido simplesmente porque está vendendo um determinado equipamento. Além do mais, transferir tecnologia pressupõe alguém capacitado em receber, seja em termos materiais e humanos, e aí o problema se agiganta pelo fato de termos pouca ou nenhuma empresa em condições. Da minha parte, eu sou um eterno entusiasta da política de Off-Set, convicto de que para um País como o nosso, com todas as nossas dificuldades, ela é a única forma de desenvolvimento científico e tecnológico capaz de superar o imenso gap existente entre nós e as nações mais desenvolvidas.
Entretanto, da mesma forma que sou um incorrigível entusiasta em incentivar a indústria aeroespacial brasileira, eu sou um eterno frustrado pelos resultados obtidos até agora pelo nosso País, em especial pela Força Aérea.
Recordo neste instante uma frase do Maj Brig José Rebello Meira de Vasconcellos, herói da FAB e veterano piloto de caça com 93 missões na Segunda Guerra Mundial, que dizia num outro contexto, mas que se pode usar para o tema em discussão: “Não se pode ensinar nada a quem não quer aprender e não se aprende nada sem que alguém saiba ensinar”!
Neste instante em que estamos definindo todos os aspectos concernentes à transferência de tecnologia que o vencedor da concorrência terá que cumprir, é bom olharmos para a experiência e resultados que a FAB obteve com o Programa de Industrialização Complementar (PIC) do programa AMX para não cometermos os mesmos erros que nos levaram a resultados tão pífios para o montante investido.
Em minha modesta opinião, o Programa AMX, por meio desse PIC, oferecia (e dava) o paraíso que qualquer empresário sempre desejou: aquisição de tecnologia de ponta em determinadas áreas, capacitação de pessoal, ampliação e adequação de instalações, aquisição de máquinas e equipamentos e, talvez o mais importante, uma carga de trabalho garantida por várias décadas (enquanto a aeronave estivesse voando!).
Naquela ocasião, selecionou-se um leque de empresas para receberem esse pacote por meio de um contrato de capacitação tecnológica e de industrialização de determinados equipamentos, e o resultado que temos hoje é ZERO ou muito próximo de ZERO! À exceção da EMBRAER, quase todas as demais empresas desapareceram, obviamente após receberem todo o pacote governamental de bondades, de forma que hoje temos que recorrer ao exterior para fazer revisões gerais dos nossos equipamentos.
Chegamos a montar uma fábrica completa para a fabricação de trem de pouso e componentes hidráulicos e qual é o resultado que temos hoje? Na área do motor, chegamos a comprar a sublicença de fabricação de componentes com alto teor tecnológico para que pudéssemos ter uma empresa capacitada a, no futuro, revisar nossos motores internamente, fabricar componentes e, eventualmente, até desenvolver motores aeronáuticos... e o resultado hoje é nenhum. Nossos motores de AMX tem que ser enviados para o exterior para revisões gerais com todo o enorme custo financeiro que isso significa.
E não adianta considerar que a posse de uma Golden-Share por parte do governo na composição acionária da empresa é garantia de que tudo irá correr conforme desejamos, porque na prática isso pouco adianta se não sabemos como e quando usar essa Golden-Share, ou tivermos vontade política para usar. Recordo-me de, ainda na ativa, ouvir de oficiais mais antigos, por diversas vezes, em situações em que estava gerenciando o desenvolvimento de algum sistema, um quase mantra: “Nós não queremos repetir os erros do AMX”!
Embora defenda com todas as forças o Programa AMX, seja pela aeronave fantástica que ele forneceu à Força Aérea, seja pelos pequenos, mas significativos resultados tecnológicos obtidos no dese
nvolvimento do avião, sou forçado a concordar que certas filosofias de Off-Set, de transferência de tecnologia, etc. não deram certo e que é importante que, neste momento, nos voltemos para as experiências vividas no passado para não cometermos os mesmos erros.
Transferência de tecnologia não é falácia, mas também não é a solução para todos os nossos problemas. O leque de empresas que temos é esse que existe aí, para o bem ou para o mal; eventualmente podemos até recorrer a uma multinacional que aqui venha a se estabelecer! Os pífios resultados do passado não justificam que não tentemos mais uma vez. A Força Aérea sempre foi assim, sempre considerou as necessidades do País antes da sua própria necessidade; assim foi no passado e assim terá que ser agora. É a única forma de legarmos um País melhor a quem nos seguirá!
5 - DECISÃO POLÍTICA X DECISÃO TÉCNICA
Durante o processo de seleção conduzido pela Força Aérea muito se falou de que a decisão seria política e não técnica. O próprio Presidente da República manifestou publicamente que, ouvida a Força Aérea, a decisão seria dele e de ninguém mais. Creio que ele está mais do que certo e que ninguém jamais colocou isso em dúvida, pelo menos no âmbito da Força Aérea! Uma aquisição dessa monta, envolvendo uma imensa soma de recursos, com uma gama infindável de impactos na área geopolítica, tem que levar em conta os interesses maiores da nação e que somente o Presidente da República tem condições de avaliar concretamente.
Entretanto, decisão política não significa uma decisão qualquer. Decisão política deve obedecer a pressupostos básicos que irmanam a nação em torno de seus objetivos nacionais permanentes e não, apenas, as conveniências do momento. Decisão política também exige explicações e justificativas coerentes a serem prestadas a toda a sociedade brasileira. Enganam-se aqueles que pensam que quanto maior o nível funcional menor é a necessidade de explicações e justificativas de seus atos! É exatamente o contrário, pois maiores e mais amplas são as implicações daquilo que fazem e que falam!
Nesse sentido, quanto mais completo, consistente e baseado em avaliações objetivas for o relatório técnico que a Força Aérea está produzindo, maior será a chance de que a decisão final, política, esteja em linha com a avaliação técnica e que a aeronave ao final escolhida atenderá, não apenas aos interesses políticos da nação, mas, também, às necessidades operacionais da Força Aérea.
Em minha opinião, se na avaliação técnica duas aeronaves tiveram pontuação semelhante – por exemplo, numa escala de zero a cem, uma recebeu 95 pontos e uma outra 90, enquanto a terceira recebeu uma pontuação de apenas 30 pontos – uma decisão política que escolha a aeronave de 90 pontos em detrimento daquela com pontuação ligeiramente maior é perfeitamente aceitável. O que fica difícil de aceitar, e de justificar, mesmo politicamente, é que a escolha recaia naquela com pontuação extremamente inferior!
De qualquer forma, como já disse no início desse artigo, independente das minhas opiniões e da decisão final a ser adotada, serei um ardoroso defensor da opção indicada pelo oficial responsável pela equipe técnica de avaliação; o relatório técnico assinado por ele eu assino embaixo, “em cruz”, sem dúvidas de que ela é a melhor para o nosso País e para a FAB.
Nesse sentido, cabe um comentário final.
6 - DECISÃO FINAL X DISCIPLINA INTELECTUAL
Nós, profissionais da Força Aérea, ao longo da carreira, somos treinados e incentivados a tomar decisões. Nosso métier – voar e combater – pressupõe análise permanente do cenário que nos cerca, das condições das nossas aeronaves, das condições meteorológicas e operacionais reinantes, das condições das nossas equipagens de combate, de todas as variáveis, enfim, envolvidas no voo para decidirmos o que é melhor para a nossa missão.
Nossa rotina nos ensina e nos torna líderes naquilo que fazemos. Somos treinados para decidir, e decidir bem! Isso de alguma forma nos leva a ser extremamente críticos com alguma atitude diferente daquela que seria a nossa; até porque decisões erradas ou não apropriadas podem levar ao fracasso da missão e, por vezes, até à morte. Buscamos a perfeição e apenas o perfeito é aceito!
Nesse sentido, os puristas que me perdoem, somos até um pouco indisciplinados! Mas como alguém já disse, não são as respostas que movem o mundo, mas, sim, as perguntas, os questionamentos, e é assim que chegamos aos dias de hoje, de uma Força Aérea altamente operacional, doutrinada e coesa, à qual temos orgulho de pertencer!
Apesar disso, do nosso apurado espírito crítico, conclamo a todos a nos unirmos em torno de nosso comandante da Força Aérea e adotarmos como nossa a decisão que ele entender ser a melhor para a FAB.
Todo e qualquer assessoramento já foi prestado, tudo que alguém havia de falar devia ter sido dito ao longo das análises feitas e, agora, temos que ter apenas uma escolha: a escolha que o comandante da Força Aérea tiver feito.
Esqueçamos nossas diferenças, nossos conceitos, nossas concepções, etc. Não podemos fazer como alguns ainda hoje fazem ao se manifestarem contra determinados projetos, décadas depois de eles terem sido implantados na Força. O que fazer com eles – jogar fora?
Em verdade nem sei muito bem por que estou escrevendo tudo isso uma vez que estou na reserva, sou página virada, em nada contribuo e quando ele se tornar público, daqueles poucos que me questionaram a respeito, a decisão já terá sido tomada e ele pouco ou nada ajudará no processo. De qualquer forma, em respeito a esses amigos, fica registrado aqui o que penso em relação ao assunto; pode ser que, no futuro, ele possa servir para alguma coisa!
Um forte abraço e até o F-X3 !!!!
R-99 OU AR-99 OU P-99? SERÁ VIÁVEL?
(Fórum no 26, out 2009)
Volto a bater na mesma tecla que iniciei em 2007 por um melhor aproveitamento do R-99. Como todos sabem, a FAB conseguiu uma extraordinária conquista para o Brasil com o SIVAM. É, sem dúvidas, um gigantesco sistema de vigilância que cobre toda a Amazônia e permite ao Brasil uma perfeita visualização, não somente ambiental como também de monitoramento do tráfego aéreo naquela região. Para isso contamos com seis satélites, dezenas de radares fixos e móveis, duzentas estações de monitoramento ambiental, trezentas estações radio transmissoras, três Centros de Vigilância e aviões de Reconhecimento e Vigilância capazes de identificar, dentre outras coisas, tráfegos aéreos e de superfície distantes trezentos quilômetros. Esses aviões são os olhos de condores que efetivamente têm mostrado uma grande eficácia em suas missões rotineiras, vigiando e vetorando interceptações a tráfegos de aeronaves suspeitas.
São os R-99A e B (E-99 e R-99). Seus equipamentos de última geração são capazes de oferecer um eficiente serviço a baixo custo e que mostram a nossa capacidade de projetar uma aeronave capaz de múltiplas funções que surpreenderam países com avançada tecnologia nessa área.
Agora faço uma pergunta:
- O quanto ainda podemos otimizar essas aeronaves aumentando sua capacidade operacional? Ouso colocar em discussão uma idéia, não sei se é nova, mas cada dia que passa acho-a cada vez mais viável e necessária.
Lá vai:
- Sabemos que a Defesa Aérea tradicional utiliza vetores independentes para executar sua missão. Radares em terra e no ar, aeronaves de defesa aérea para interceptação e destruição e também a artilharia antiaérea de cano e de mísseis. Como atualmente estamos operando novos vetores de detecção que são os R-99, que tal otimizá-los para AR-99 (Reconhecimento e ataque)? Que acham da idéia de capacitá-los a transportarem mísseis... mísseis ar-ar ou mísseis ar superfície de longo alcance? Com isso, quanto poderíamos incrementar o poder aéreo da FAB? Percebo que essa é uma alternativa de baixo custo e alto ganho operacional. Sei que a EMBRAER já deve ter sido sondada para desenvolver um vetor de patrulha (P-99, P-175, P-195) com um certo potencial de ataque.
Quem sabe se no futuro teremos mais uma opção sendo considerada e aplicada? Sonhar não ofende, entretanto sonhar pra si mesmo é pecaminoso, por isso e por outras hoje ponho meus sonhos no papel. Seria um avanço na Defesa Aérea, na Patrulha e na Busca e Salvamento, pois teríamos respostas mais rápidas às incursões aéreas, digamos, por uma Defesa Aérea Avançada e na Patrulha de superfície com alto potencial de reconhecimento marítimo, mesmo em altitude e em condições meteorológicas desfavoráveis (isso está comprovado nas buscas do AF-447, no oceano, com uma fantástica discriminação nas buscas de superfície que surpreendeu até os mais crédulos como eu). Seria o primeiro vetor a detectar e se contrapor a um ataque a uma grande distância em regiões de difícil acesso.
Uma detecção aérea a 140 milhas náuticas (MN) com uma velocidade de aproximação de 1.600km/h, o míssil de alcance de 60 MN (BVR, AIM-120 AMRAAM ou o R-77 Adder, russo, com 100 km de alcance e 80 km de raio de ação ideal; esse míssil pesa 175 kg e a Venezuela está negociando) Ele poderia ser lançado com segurança de uma distância de 110MN. A interceptação se daria a 55MN. O R-99 faria o lançamento, iluminaria o alvo retornando para uma área de segurança. E ainda, porque não dispor desse mesmo vetor para detectar alvos terrestres e marítimos a longa distância e usá-lo como plataforma de ataque? Missões de esclarecimento marítimo estão comprovadamente viáveis com o R-99? Lógico que sim. A detecção de um Snorkel pode se dar a 80 MN. Até mesmo de um periscópio a uma distância menor. Alvos maiores de superfície podem ser detectados com muita precisão a maiores distâncias, 150MN.
As missões de esclarecimento marítimo ganhariam um grande incremento. Na verdade, missões anti-submarinos contra alvos com a tecnologia nuclear submersos são difíceis de detecção e ainda não estariam incluídas neste “pacote”. Isso seria deixado para os “P-3” que a FAB adquiriu recentemente e estão sendo revitalizados na Espanha. Ataques com artefatos tipo Exocet a alvos de superfície teriam um índice de êxito bastante elevado. Depois do ataque inicial desses vetores, o complemento tradicional aconteceria. Os atuais vetores de ataque e defesa completariam a missão.
Uma necessidade de realizar um patrulhamento a baixa altura poderá ser suprida pelo complemento operacional, o P-95 ou outra aeronave, mas o R-99 é um avião com excelente autonomia (e que pode ser incrementada com reabastecimento em voo) e é capaz de detecção a longo alcance com uma alta resolução discriminada de seus sensores. Mísseis poderiam ser transportados nas suas asas ou em alojamentos na fuselagem (tipo o F-117 Nighthawk). O R-99 é relativamente grande para receber esse incremento operacional.
Acho que podemos pensar no assunto e, quem sabe, estudá-lo. É fácil? Não. É viável? Sim, é viável. Vai implicar em uma grande alteração doutrinária, estrutural e eletrônica. Representará um novo desafio à capacidade de desenvolvimento na operacionalidade da Força Aérea e à inteligência e à criatividade na área da nossa Indústria Aeronáutica e de Defesa. Será uma inovação no poder aeroespacial de grande alcance. Será um projeto caro? Pode ser. É caro revitalizar os P-3 na Espanha? É, mas estamos revitalizando. Também acredito que um projeto dessa monta deve ser continuidade ao já existente na Embraer com o advento dos “R-99”.
Lembrem-se que o Cindacta transformou o Sistema de Defesa Aérea tradicional. Isso demonstra nossa inteligência para inovações. A discussão está aberta. Vontade e criatividade são os vetores mais importantes do “fazer acontecer”. Os “sonhos” somente são pecados se deixá-los somente nos “sonhos”. Realizá-los é o desafio dos homens.
SENTA A PÚA !
REEQUIPAMENTO, TECNOLOGIA E ELEFANTES BRANCOS...
(Fórum no 25, ago 2009)
Recentemente, a mídia tornou público os Planos de Reequipamento das Forças Armadas. Matéria anteriormente mantida como de “prioridade e domínio interno”, passou a figurar (natural nas democracias maduras) como um assunto que requer – compulsoriamente – conhecimento e a participação da Sociedade. Que, afinal, “pagará a conta”. Um dos atuais dilemas das Nações Modernas, ao ter que dimensionar suas Forç
as Armadas, é a decisão a tomar quanto à quantidade e qualidade da estrutura/meios a manter em serviço.
“Tamanho, sofisticação” (e custos) além do necessário, dificilmente encontram sociedades dispostas a pagar. Desde os últimos conflitos, os governos do mundo vêm tentando compensar o "gap" quantitativo porventura existente impondo a maior qualidade técnica possível aos seus Sistemas-de-Armas e Equipamentos. Evidentemente, a tecnologia de ponta também tem valor elevado, sendo possível imaginar que o custo final das Forças Armadas “de qualidade” seja bem maior do que o custo daquelas “de quantidade”.
De qualquer forma, parece ser muito mais fácil às Forças Armadas (1o Mundo) a obtenção de verbas para a primeira linha de ação do que para a segunda! E é a partir desse ponto que parecem se originar os parâmetros que intervêm no processo de renovação mundial do material militar. Entre eles, o Brasil. Em que pese essa situação conjuntural, é óbvio que as indústrias bélicas do 1o Mundo não produzem seus Sistema-de-Armas e Equipamentos tendo como destinatário, exclusivamente, o seu mercado interno. E não o fazem somente por razões de ordem econômico-financeira, mas, também, por razões estratégicas, já que tudo é produzido visando, também, a exportação: “manutenção de área de influência”?
O Brasil aparece embutido nesse processo de duas formas: é um país emergente, que vive e sobrevive sob os percalços de membro dessa comunidade mas, ao mesmo tempo, é detentor de uma indústria militar de reconhecida competência e capacidade produtiva. Em que pese essa posição, o Brasil ainda é um grande comprador de equipamentos de combate de primeira linha. E, além disso, participa – associadamente – de programas multinacionais destinados a prover Sistemas-de-Armas para suas Forças Armadas e, também, para a (possível) exportação. Isso significa “ser capaz de especificar tecnicamente esses produtos e produzi-los”.
Entretanto, e adotando a citada prática mundial, estabelece requisitos além da sua necessidade, de forma a procurar acompanhar a “corrida” de vendas de produtos militares. Sendo, no entanto, detento
r de um mercado interno incapaz de absorver o "break-even" dos programas da linha industrial militar, é natural que seja compelido a elaborar especificações técnicas que devam atender às demandas das F. Armadas do Brasil e, além disso, disputar uma posição de exportador e fornecedor internacional.
“Encurralado” no contexto em que a meta é “quanto mais sofisticado melhor”, o Brasil termina por não poder se liberar desse círculo vicioso, mergulha no território das soluções extrarrefinadas para seu material de 1a linha em que, até as modernizações/revitalizações praticadas (supostamente baratas) custam fortunas! Com recursos financeiros limitados, quase nenhuma nova aquisição foi recentemente realizada pelo Brasil, tendo a Alta Administração Militar optado pela modernização/r
evitalização das frotas aéreas, navais e terrestres. Mas, mesmo sob essa tônica, as modernizações/revitalizações vêm sofrendo dos efeitos da mencionada circunstancialidade, já que a tendência tem sido incorporar tecnologia além do necessário.
Além disso tudo, em todo o momento em que é aventada a hipótese de reequipamento das Forças Armadas, vem à tona a famosa (e falaciosa) tese da “transferência de tecnologia” vinculada à mencionada compra. Pergunta-se: transferência de qual tecnologia? É possível crer que um projeto de desenvolvimento de tecnologia de ponta para qualquer Sistema-de-Armas, que já consumiu bilhões de dólares e, às vezes, dezenas de anos de desenvolvimento, venha a ser entregue “na bandeja” para um pobre comprador que só vai adquirir 12 a 18 aviões de uma cadeia produtiva, cujo "break-even" exige um mínimo de 250 aviões para ser economicamente viável? Só na cabeça dos sonhadores... ou teóricos.
O sempre citado programa binacional Itália-Brasil, (AMX) não resultou em transferência de tecnologia e sim na transferência de “conhecimento de métodos e processos” de produção e industrialização. Foi extremamente caro e mais serviu à EMBRAER. O resultado aí está.
Que a FAB responda... Portanto, para manter os programas de reequipamento militar atualizados é imprescindível prever o quê serão as nossas Forças Armadas nos próximos 30 anos. Aí cabe, então, optar por soluções que sejam compatíveis com os nossos problemas, com o nosso cenário, sem nos ofuscarmos pelo brilho do avanço tecnológico excessivo, pois poderemos estar à procura dos populares “elefantes brancos”, sem dúvida incompatíveis com o nosso bolso e, mais do que isso, com o nosso cenário e a nossa política de Defesa!
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