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aguia-ira

FÓRUM DO CAÇADOR

Os textos aqui publicados tem por finalidade estimular e colaborar na difusão de ideias e pensamentos, integrando a comunidade brasileira de pilotos de caça e preservando suas tradições e seu espírito de corpo, bem como promovendo a interação entre seus componentes e a Força Aérea Brasileira.

A partir do número 108 os artigos do FÓRUM DO CAÇADOR não são mais destacados nesta seção. Estão publicados no próprio ABRA-PC Notícias, e ali podem ser acessados.

Os artigos abaixo, destacados dos ABRA-PC Notícias até o número 107, estão listados por ordem decrescente de publicação (do mais recente para o mais antigo).


 

Sobre a mensagem da Diretoria da ABRA-PC no Boletim nº 94
(Fórum no 36, nov/dez 2012)

 

 

Amigos Caçadores, descendentes na glória dos Cavaleiros Medievais,

O texto mensagem da diretoria foi escrito com enorme delicadeza.
Contudo, em suas entrelinhas, é possível ler que a Caça vive este mesmo drama há bastante tempo. Como já disse uma vez, uma aeronave de caça é como um cavalo de batalha medieval, “não pode temer nem o fogo nem o estrondo; deve ser forte para proteger seu cavaleiro dos ataques da infantaria; ágil para escapar dos ataques; e outras coisas que não me lembro mais”. É um cavalo caro, muito caro! Mas, sem ele, o “Reino” estará desprotegido. Simples assim!!! Um cavalo velho e cansado não defende nem a si mesmo!!

Há 27 anos, folheava um manual da Segunda Seção do COMAT sobre a Avaliação da Força, e lá estava tudo o que se ensinava na ECEMAR sobre o assunto. No ano seguinte, fui Instrutor de Avaliação da Força no CEM. O que sabia naquele tempo é que piloto, sistema de navegação e armas e plataforma (anv) precisavam casar-se até que “a morte os separe”. De todas as probabilidades que compunham a Probabilidade de Sucesso, havia uma que me chamava a atenção: a probabilidade de sobreviver na surtida. Era composta de algumas outras como superar as defesas, antes e depois do ataque, ou superar outra aeronave, antes e depois do ataque.

Neste ponto, Cavaleiros da Távola Redondaminha memória “rebobinou” até a metade de 1975, quando pousei no Galeão com o primeiro F-5E do Grupo de Caça. Demorei a “rebobinar” 37 anos até aquele momento. 37 anos é idade de Major, talvez Tenente Coronel, nascidos naquele ano. Bem, o “cavalo de batalha” está velho. Depois da “operação de catarata” vê um pouco melhor, mas, a força já não é a mesma. Os remédios para seus males já não funcionam mais. Seu primo, o A1, envelheceu junto com ele e sofre dos mesmos males, estando cego desde nascer; “galopa” sem força com seus “músculos” cansados e vê por instinto e pelos olhos de seu cavaleiro. Seu meio irmão Mirage “morreu” recentemente de velhice. Os cavalos de batalha do Reino envelheceram e vivem probabilidade desfavorável de sobrevivência em combate, Talvez não sobrevivam, levando consigo seu cavaleiro. 

Enquanto o “Rei” confere as moedas em seu cofre, as fronteiras do “Reino” estão sob ameaça constante. O discurso de que os “Reinos” vizinhos são amigos é pura fantasia. Os “Reinos” são amigos enquanto houver interesse comum. Com interesses conflitantes, iniciam-se as pressões econômicas e quebras de acordos, buscando impor-se ao “Reino” vizinho. Conversar “desarmado” é não ter “força” nos argumentos. Esta é a realidade das relações internacionais. Dissuadir ainda é verdade, desde Sun-Tzu.

Honra aos cavaleiros que montam seus velhos “cavalos de batalha” e estão prontos a perder suas vidas enfrentando cavaleiros montados em cavalos jovens! A “força” dos músculos do cavalo de batalha ainda é fator decisivo para sua sobrevivência, mesmo que o “arqueiro” nele montado dispare sua “flecha” a distância segura. Se errar, precisará combater ou fugir montado em seu “amigo” de “músculos” cansados...

Que o “Rei” descubra o valor de seus bravos cavaleiros e os proteja em suas batalhas eventuais no futuro!!! O “cavalo de batalha” é essencial nesta proteção!!! Os irmãos que plantam a comida, curam as doenças e fabricam as “armaduras” não estarão tranquilos sem os Cavaleiros montados em seus Cavalos de Batalha a defender o “Reino”.

Que o “Rei” não se esqueça disto!!!!

Assim seja.

Tacarijú Thomé de P. Filho - Cel R1
Piloto de Caça - Turma de 1967

PROJETO KFIR-C10: ESTÓRIA JAMAIS CONTADA
(Fórum no 35, set/out 2012)

 

Para situar apropriadamente o projeto do título, é indispensável reportar-se ao “longo e badalado” período em que a FAB viveu (e sonhou) com uma nova aeronave de Caça capaz de ocupar o espaço proveniente da desativação do F-103 MIRAGE, que estava prevista para Dez 2005: o Projeto FX.
O “tempo” era 2003, quando, com a mortalidade do Projeto PHOENIX, o Governo Federal aprovou o “Plano de Fortalecimento do Controle do Espaço Aéreo Brasileiro”.
 
Para analisar com veracidade o mencionado período é, também, imprescindível que haja desprendimento, por parte da Organização, para arcar com o ônus proveniente de nenhuma iniciativa (técnica/operacional) ter sido tomada em tempo suficiente para neutralizar ou minimizar os impactos negativos da “antecipação da caducidade” dessa fabulosa máquina de guerra, MIRAGE III proveniente da falta de medidas corretivas que deveriam ter sido tomadas em tempo útil.
Este relato não é apenas o testemunho de um profissional e observador FABiano já que – uma simples consulta a qualquer documento de referência sobre aeronaves de combate do mundo – comprovará que o Brasil foi o único operador do MIRAGE que nada fez em proveito da extensão de sua vida operativa, quer seja através da modernização de seus sistemas (radar e complementos), remotorização, melhoria de desempenho (manobrabilidade), melhoria de capacidade operacional (reabastecimento em voo), modernização de armamento/missilística (eternizamos o míssil adquirido em 1972) e correção de defauts de jeunesse advindos da fabricação original (compartimentação dos tanques externos p.ex.).
Da leitura da documentação do fabricante e da análise dos dados existentes em poder da FAB, concluir-se-á que os MIRAGE IIIEBR brasileiros representam a frota desse tipo mais jovem do mundo a ser retirada do serviço já que as aeronaves foram fabricadas para uma vida útil de 8000 horas e o nosso “vovô” não possuía mais de 4000 horas de voo, todas elas utilizadas apenas em missões de DA, sem comprometimento das estruturas em missões de ataque ao solo!

Dirão os leitores: essas considerações não se relacionam com o título da matéria. O autor concorda. Entretanto, o objetivo é situar o mencionado projeto (como já mencionado) no seu devido espaço e tempo (do Brasil e da FAB). Voltemos, pois, ao começo de tudo: o Plano de Reequipamento da FAB (Projeto PHOENIX) que, muito apropriadamente, pretendia revitalizar o material aéreo da FAB e “extraí-lo das cinzas em que se encontrava”... Daí – dentre outros – surgiram os Projetos FX, PX, CX, ALX, AMX, F5, MoD, etc.Mirage3-BR

Enquadrado na temática desse assunto, estava o Projeto FX que – à época e com a antecipação adequada – levantava a necessidade de planejamento, estudos, análises, definição de requisitos e ações para enfrentar a obsolescência do nosso interceptador principal, o F-103. Àquela época, já se estimava que sua mortalidade logística (e, principalmente, operacional) ocorreria em Dez 2005.

Nada a contestar visando respeitos das medidas e ações praticadas pelo operador (COMGAR), Planejamento (EMAER) ou “estudador- contratante (DEPED/COPAC)”. Todo o processo transcorreu com a necessária expertise e competência. A conduta para realizar o Projeto FX merece um relato especial e descomprometido, que não é nosso propósito.

Ao listar e avaliar as informações, prazos e condições, etc., etc. oferecidas por qualquer indústria concorrente, em busca de “nichos de oportunidade” no terreno das licitações mundiais de material de Defesa, facilmente um analista se daria conta que, por mais que se esforçassem os grupos fabricantes envolvidos em atender aos RFP do FX, havia um “espaço vago” (nicho) não preenchido por nenhum dos concorrentes.
Esse "trou" estava explicitamente caracterizado nos cronogramas de entrega de quaisquer dos novos aviões oferecidos por todos os concorrentes, espaço vago esse que correspondia ao espaço de tempo existente entre a assinatura do contrato de aquisição (e a consequente data de entrega do novo produto) versus a data de mortalidade do F103 (26 Dez 2005).
Leia-se aqui: “reposição das máquinas já desativadas àquele momento”... Nenhuma das propostas poria em serviço operacional seu produto até (ou antes) daquela data do anunciado falecimento do F-103. Ou seja: os F-103 iniciariam sua “corrida para o corredor da morte” e a Unidade iria “groundeando” gradativa e continuadamente suas máquinas, perdendo sua já (extremamente) prejudicada operacionalidade para a missão DA. Os radares CYRANO estavam de tal forma degradados que os combates dissimilares foram suspensos, tal a “cegueira” que tomara conta dos radares de bordo. Nesse preciso momento o GDA estava, em verdade, equipado como “XAVANTÔES cegos a Mach 2.0...”, diziam seus pilotos.
 
Como consequência da desativação do F-103, com base no Plano PHOENIX e nos estudos do COMGAP, a FAB já havia interrompido as aquisições de peças de reposição, recompletamento de estoques nas prateleiras e – principalmente – interrompidas as revisões gerais dos motores ATAR 9C (por razões óbvias e decorrentes do enorme custo, que era superior a US$ 1.2 milhão/motor). Apesar dessas limitações, a Unidade lutava para obter disponibilidade diária que não chegava a ser superior a 44% e voar não mais do que 110 horas/anv/ano! Em contrapartida, despendia cerca de US$ 10.000/hora de voo e tinha um dispêndio (total médio de manutenção anual) entre US$ 18mi/US$ 19 milhões.
Todos esses valores (obtidos com o COMGAP) conduziam para o agravamento da situação, cuja solução somente seria encontrada com a entrada em serviço do FX (qualquer deles). Isso somente ocorreria (de acordo com qualquer dos contratos em estudos) entre 3 e 4 anos (tempo consumido entre a apreciação pelo Conselho de Defesa Nacional e a ordem de aquisição até ativação operacional plena em Anápolis). Assim previam todas as propostas de fornecimento comprometidas com o Programa FX.
 
Partindo da premissa que o MIRAGE tinha data de falecimento e era inexorável (26 dez 2005); que o calendário de todas as propostas indicavam um vazio operacional de 3 a 4 anos e que a “morte por inação do material do GDA” era inaceitável; que os recursos para investimentos deviam ser totalmente canalizados para o Projeto definitivo, que era o FX; que qualquer que fosse a solução adotada, a FAB continuaria despendendo entre ÜS$ 18 mi/US$ 19 mi por ano, sem nenhum ganho operacional e; que os cronogramas (desativação F103 e ativação FX) eram inexoráveis, a solução “paliatória” (paliativa e provisória) mais aceitável para a Administração da FAB era buscar uma plataforma cuja similaridade com o F103 fosse tão elevada que não compelisse a novos e indispensáveis e enormes investimentos, até o recebimento do FX: aquisição de equipamentos e/ou ferramental, novas instalações fixas, treinamento do pessoal de logística e de pilotos, que assegurasse o aproveitamento de todo material de reposição já existente (e aplicável ao F103), que demandasse o mínimo consumo de tempo para a transição ao novo avião (pilotos e mecânicos), que assegurasse entrada em serviço entre 6 a 10 meses após contrato (evitando a morte do F-103), dispêndio financeiro de manutenção semelhante ao que já ocorria orçamentariamente por ano (US$ 16 mi/US$ 19 mi) e que, ainda, oferecesse maior índice de disponibilidade diária do material aéreo e, maior número de horas de voo voadas por avião/ano comparativamente ao que vinha sendo obtido. Ou seja: similitude do material já apoiado pelo sistema logístico da FAB que era o F-103, e – PRINCIPALMENTE – apresentasse ganho efetivo de operacionalidade no cumprimento das tarefas de DA (radar de última geração, sistema de armas modernizado e missilística atualizada), com os mesmos (ou menores) dispêndios de custeio e, principalmente, nenhum investimento...
 
Estavam, portanto, sinalizados os parâmetros que deviam reger a eleição de uma plataforma-ínterim, que faria obturar o mencionado espaço de tempo existente (3 a 4 anos) que todas as propostas dos concorrentes ao FX apresentavam. A ideia base era evitar a mortalidade do GDA, enquanto o Programa FX estivesse em curso, além de não realizar investimentos novos durante esse período de espera.
Admitir-se-ia, apenas, realizar os dispêndios orçamentários (já praticados) para com os serviços (manutenção da frota), buscando o aumento da operacionalidade da Unidade Aérea, que estava totalmente degradada.
Conclui-se, portanto, que as palavras-chaves do programa-ínterim seriam compatibilidade e similaridade (custo-benefício) com a aeronave MIRAGE F103, acrescidas das exigências de modernidade de sistema de armas, melhor operacionalidade, melhor disponibilidade e maior atividade aérea e mesmos dispêndios... Sobrevida, portanto, com mais vitalidade. Porém, com interinidade: o vetor que viesse a ser incorporado para “tapar o buraco” seria episódico. O FX é que seria o definitivo...

Para atender a essas premissas, nenhuma plataforma existente no acervo mundial, e em estado operacional (mesmo que usada), suplantaria a aeronave israelense IAI-KFIR versão C10 (de berço francês-MIRAGE com 66% de similaridade com o F-103), equipada com radar multimissão de 4a geração (ELTA 2032), motor de maior potência J79 – do Phantom F-4 (19000lb Empuxo) – e armamento atualizado e já integrado ao avião (itens tais como missilistica inteligente, bombas guiadas, míssil BVR e armamento convencional).

A proposta KFIR à FAB

Sempre com as condicionantes de interinidade, compatibilidade, similaridade, custo-benefício, modernidade e operacionalidade em vista, a proposta oferecida à FAB pela IAI-Israel Aircraft Industries (Divisão LAHAV) em 2002 tinha a seguinte composição e compromissos contratuais:

- manter o despêndio anual orçamentário (custeio) igual ou menor do que o valor do montante de despêndio anual já praticado (US$16-US$ 19 mi) e que, à época, correspondia a manter média de disponibilidade dos F-103 em torno de 30% e voar, em média, cerca de 1400hs-1600hs/ ano (+/- 110h/anv/ano) pela Unidade.

- assegurar que a transição de pilotos e mecânicos seria feita em curto prazo (estimado 30 dias).

- utilizar todo o equipamento de apoio, AGE, bancadas, ferramental e bancos de teste em uso para o F-103, nada adquirindo para suprir possíveis necessidades.

- assumir todos os itens de reposição e material aplicável ao F-103 em estoque no PAMA-SP e BAAN para consumo durante a execução do contrato, reduzindo, pois, o custo final do Programa.

- incorporar ao contrato a manutenção dos 4 MIRAGE F-103D existentes na frota da FAB, (que não seriam desativados), oferecendo os mesmos índices aceitos para os KFIR.

- realizar toda a manutenção (pista, Base) com o próprio pessoal da FAB, sem assistência técnica permanente da IAI.

- entregar o primeiro lote de 4 aviões KFIR- C10 em 6 a 10 meses e entregar a última aeronave em 16 meses, a partir da assinatura do contrato.

- assegurar, contratualmente, a disponibilidade diária de 65%, arcando com penalidades, caso houvesse não cumprimento da meta contratual.

- assegurar o mínimo de 165h/voo/anv/ano, arcando com penalidades por não cumprimento da meta contratual.

- assegurar o fornecimento de todo e qualquer item de reposição ou peças necessárias, sem qualquer ônus para a FAB.

- oferecer um contrato (CLS) de 3 anos apenas, extensível por mais 2 anos (caso a FAB desejasse mais tempo para o recebimento de qualquer FX).

- equipar a aeronave com o radar multimissão de última geração ELTA 2032 (já escolhido para o P3BR) pela sua excelente qualidade de desempenho (entre os melhores do mundo). Oferecer sistema de armas e missilística idêntica às especificações do FX, já integrado na aeronave,assegurando o “salto tecnológico” pré-FX que a FAB necessitava. A proposta poderia ser do tipo, leasing ou aquisição (com a possibilidade de aceitar os 12 F-103 brasileiros como parte do pacote financeiro de pagamentos).

O Andamento da Proposta

Com base na total palatabilidade da proposta, o ALTO COMANDO da FAB opinou por unanimidade, a favor do projeto, por duas vezes (publicado em Bol. Periódico do CECOMSAER de 31 Jul 2002).

A FAB realizou três (avaliações) do material no transcurso dos anos 2002 a 2005: uma com voo em aeronave KFIR CE 2000 (similar ao C10) da FAe do Equador e enviou duas missões, em períodos distintos, para avaliação em Israel. As equipes (pilotos, engenheiros e técnicos) conheciam profundamente o MIRAGE F-103, e puderam constatar in loco a similaridade e comunalidade entre as máquinas, seus equipamentos de suporte logístico, assim como o preenchimento de todos os requisitos para uma aeronave-episódica... não concorrente nem competitiva com o FX: apenas interina. Apesar de tudo, o Projeto foi “degolado”, sem considerações adicionais ou argumentos sólidos, em Jan 2006. Caso a FAB tivesse firmado o contrato KFIR C10:

- despenderia em 5 anos entre U$$ 84 mi/U$ 92 mi (menos de US$ 18 mi/ano) para obter um ganho expressivo de operacionalidade e impedir a mortalidade do GDA.Kfir

- não despenderia um centavo em investimentos (aquisição de material) e só continuaria com as despesas de custeio, já em curso...O KC10 era 66% similar ao MIRAGE IIIE.

- não haveria o gap operacional do GDA, “obturado” com os voos do AT-26 em Anápolis (e a DA?)

- não teria esperado 2/3 anos para receber as aeronaves MIRAGE 2000 um interceptador (?) só com apenas mais 5 anos de vida útil! Ou seja, “exéquias em 2012”!!

- não despenderia um centavo, até receber o definitivo FX (já que o “FX não morreu”...). Hoje a DIRMAB paga até arruelas e parafusos “não contratuais”, pois nenhum equipamento por mais simples que seja(escada para galgar a nacele, macaco de roda, simulador, banco de motor, etc.) do F-103 são inaplicáveis ao M2000!

- não tocaria em um tijolo das instalações do GDA ou da BAAN que, da forma como está posta assumiria, o KFIR C10, sem “nenhuma dor”...

- manteria o moral da Unidade intocada, sem submetê-la à “degradação operacional” oriunda da espera... fazendo “hora de jato”... (maquinetando sem missão definida), e com um efetivo reduzido, apenas para fazer constar que estava com vida... e não desfalecida.

- respeitaria as duas votações unânimes por parte do Alto Comando e que, com base em demonstração da unicidade de posições e coerência, permitiu que o Comandante (à época) abordasse o Projeto KFIR C10 ao próprio Presidente da República, tendo dele recebido aprovação em tese, como “solução interina” para a “crise da DA” do Brasil. Não a pôs em prática por razões de momento político: transição de GOVERNO e mudança da Administração da Força Aérea...

- teria mantido incólume e ininterrupta a DA (hoje realizada a custos gigantescos (financeiros e operacionais) com a manutenção de F5E deslocados em Anápolis (à época): operação “tapa buraco”.... E, finalmente, as razões apresentadas para justificar (na realidade, contestar as decisões de unanimidade tomadas pelo Alto Comando) só se basearam na chamada de “razões da Administração”: as simple as that!

Esta é a verdade verdadeira do natimorto Projeto KFIR C10. O resto... é o resto. A história aqui está registrada pelo ator que viveu (e sofreu) todos seus longos minutos e assistiu à mortalidade induzida do nosso valente MIRAGE F-103 e o descuido no cumprimento de nossa missão-primeira: a DEFESA do ESPAÇO AÉREO BRASILEIRO!

Este é também, um relato-homenagem à decisão corajosa de uma Administração que resolveu enfrentar o caos da DA com uma solução hors cadre, para o reequipamento da Força: interinidade para atingir a modernidade duradoura, no futuro.

Em analisando o andamento do Projeto FX2, encontramos similaridades com a estória aqui relatada, pois, “falecendo” o MIRAGE 2000 em 2012, qual será a “solução interina” capaz de sustentar a DA incólume?

Recordar é viver...

Lauro Ney Menezes - Maj. Brig. Ref.
Piloto de Caça - Turma de 1948

MEU NOBRE COMANDANTE
(Fórum no 34, jul/ago 2012)


Pensei muito antes de decidir escrever-lhe, mas em nome da lealdade que um dia assumi para com meus comandantes aqui vão algumas considerações que submeto à sua consideração…

Refiro-me a seu artigo publicado na Revista Aeronáutica no 278: “Reequipamento, modernizações: E o avião de combate futuro?” onde, em certa parte, o senhor diz: “...O sempre citado programa binacional Itália-Brasil (AMX)... Foi extremamente caro e mais serviu à EMBRAER. O resultado aí está. Que a FAB responda...”.

Não é a primeira vez que o senhor se utiliza dessa expressão “Que a FAB responda” ou “Com a palavra a FAB”, etc. para questionar a validade do produto final – avião de caça – entregue à FAB por conta desse pAMX (A-1A) dando rasante no Anhembirograma de desenvolvimento.

Assim, como até agora ninguém resolveu respondê-lo em nome da FAB, resolvi fazê-lo na qualidade de primeiro comandante da unidade que implantou operacionalmente a aeronave AMX.

O senhor não precisa ter dúvidas, a par de todas as vicissitudes do programa de desenvolvimento da aeronave, a FAB, ao final de tudo, recebeu um excepcional caça-bombardeiro que mudou completamente a forma de combater que a Força até então utilizava. 

Para atestar isso, por que será que a FAB enviou a aeronave A-1 (AMX) para participar do primeiro exercício “Red Flag” e não o fez com as aeronaves Mirage III e F-5E então existentes há muito mais tempo e completamente operacionais? O senhor já se questionou a respeito?

Pois eu lhe digo, a aeronave AMX era a única no acervo da caça operacionalmente capacitada a participar e contribuir para os resultados finais de um exercício daquela complexidade. Era a única na FAB a possuir equipamentos de contramedidas eletrônicas ativos e passivos instalados, a única a possuir lançadores de "chaff" e "flares", a única a possuir um sistema de navegação e ataque integrados que permitia a realização de uma missão de ataque dentro dos parâmetros então exigidos para uma missão operacional num cenário operacional como a “Red Flag”. Em resumo, o AMX era o único avião que possuíamos que entraria no exercício (guerra?) e não seria motivo de preocupação em termos de segurança de voo e operacional para os demais participantes. O senhor já imaginou uma aeronave T-25, sem rádio, voando na TeAMX (A1-A) soltando 'flaresrminal São Paulo na hora de pico noturno?

Outros exemplos podem ser dados: por que a Força Aérea utilizou o AMX para destruir com munição real pistas e pontes clandestinas abertas na Amazônia e não o fez com as aeronaves F-5E ou Xavante há tanto tempo operacionais na Força? Pois eu lhe digo, fez assim porque precisão absoluta e danos colaterais mínimos eram exigidos e apenas o AMX era quem garantia tal performance!

Dirijo-me ao senhor como piloto da aeronave e primeiro comandante da unidade e não como partícipe do programa de desenvolvimento. O AMX é um excepcional caça-bombardeiro que cumpre todos os requisitos operacionais estabelecidos à época pela FAB e que devolveu à FAB, em termos de eficiência operacional, cada centavo investido no seu desenvolvimento. 

Recordo-me quando do nosso primeiro deslocamento para participar da FIDAE (Feira Internacional de Aeronáutica e Espaço), realizada bianualmente no Chile. Ao pousarmos em Santiago com duas aeronaves, nossos amigos chilenos, ao saberem que havíamos decolado de Santa Maria, nos questionaram onde havíamos feito um pouso intermediário até Santiago. Ao saberem que havíamos feito um voo direto, sem reabastecimento em voo, Santa Maria – Santiago, eles manifestaram surpresa e admiração com a capacidade demonstrada pelo avião. Naquele instante, com essa simples demonstração de capacidade operacional, a FAB mudava todo o equilíbrio de forças até então existente no nosso contexto operacional sul americano.

É preciso, entretanto, analisar as capacidades da aeronave à luz dos requisitos estabelecidos. Querer analisar o AMX como um caça de combate aéreo puro, querer que ele se comporte em altitude como um F-16, F-18, Mirage ou coisa que o valha, é misturar alhos com bugalhos que não nos leva a lugar algum, exceto a conclusões precipitadas e erradas. Da mesma forma que debitar ao avião os problemas ocorridos durante o programa de desenvolvimento, inerentes a qualquer programa dessa natureza, também não é justo!

Foi assim que nós quase matamos operacionalmente o avião. Foram alguns de nós que o chamaram de F-32 – aeronave duas vezes mais cara que o F-16 -, de APX – aeronave pior que o Xavante – etc., simplesmente porque queriam que a aeronave tivesse um desempenho do caça dos seus sonhos e não do avião que a FAB havia especificado – um avião de ataque leve (lembra-se do A-X?). Tanto falaram mal que tivemos imensa dificuldade em conseguir voluntários para guarnecer a nova unidade aérea e voar a aeronave mais moderna no então acervo da FAB! 

Reitero, a FAB recebeu com o AMX um excepcional caça-bombardeiro, nos mesmos níveis de um A-7, Jaguar, A-10 ou aeronave semelhante e que cumpre eficazmente a missão que a FAB necessita. NAMX (A1-A) e toda a sua capacidade de cargaão preciso recordar, mas avião de caça não é apenas aquela aeronave que sobe como um raio, navega quase na troposfera e intercepta uma aeronave inimiga o mais distante possível do nosso território. Há que haver alguém que navegue com precisão, voe o mais distante possível, despeje uma carga de munição letal, com precisão, num alvo pesadamente defendido pelo inimigo e retorne com segurança à base de origem. Quase igual aos nossos veteranos do 1o Grupo de Caça na Itália!

Em resumo, meu nobre comandante, o programa AMX, além de ter servido para o desenvolvimento tecnológico da EMBRAER (e do Brasil!), deu à FAB (e ao Brasil!) um excelente instrumento operacional de suporte aos nossos mais lídimos anseios como nação. Não tenha dúvidas a respeito!

Um outro aspecto que gostaria também de comentar com o senhor e que, de alguma forma, vai contra alguns de seus comentários, é a respeito daquilo que o senhor chama de “corrida ao encantamento tecnológico”.Quando substituímos nossos usados e ultrapassados F-47 pelo moderno avião a jato F-8, o fizemos pelo encantamento tecnológico ou por uma necessidade operacional real?

Quando substituímos nossos obsoletos T/TF-33 pelos modernos Mirage o fizemos pelo encantamento tecnológico do voo supersônico ou por uma necessidade operacional real de "chaff" e "flares", cAMX (A1-A e A1-B) reabastecendo em vooontramedidas eletrônicas, um radar que “enxergasse” além de 20 milhas e pudesse monitorar mais de um alvo, estávamos fazendo isso por encantamento tecnológico ou por uma necessidade operacional real? 

Buscar a capacidade operacional que atenda aos anseios da nação brasileira é encantamento tecnológico ou vontade de poder cumprir a missão que a sociedade espera da FAB?

Quem está dentro da nacele de um caça precisa ter o que há de mais moderno para sobreviver à arena de combate, embora tenha que haver alguém que defina para ele qual arena de combate ele vai operar, condicionando, portanto, a tecnologia então necessária!

Entendo que deve haver um balanceamento entre qualidade e quantidade – de nada vale a mais moderna tecnologia se somos incapazes de mantê-la ou de tê-la em número insuficiente – mas não há como entrar em combate com estilingues enquanto nossos possíveis adversários estão armados com metralhadoras, não importando a quantidade de estilingues que nós possamos ter! Nesse sentido, arrisco dizer que a meu ver a FAB tem conseguido, a duras penas, esse tão difícil equilíbrio.

Meu nobre chefe, não me leve a mal, espero que o senhor entenda minhas manifestações, feitas dentro do mais puro espírito de Tribuna Livre do Piloto de Caça, da mesma forma que entendo as suas.

É sempre um prazer “duelar” idéias com um ex-comandante como o senhor, caçador da mais nobre cepa, já que fica muito mais difícil duelar no espaço, vendo-o às 5 horas, caindo do poleiro. Invariavelmente eu acabaria torto de tanto “G”.

Um forte abraço.

Quírico - Adelphi 01
 
Teomar Fonseca Quírico - Brig. do Ar R-1
Piloto de Caça - Turma de 1970

MISSILÍSTICA/BALÍSTICA E NUCLEARIZAÇÃO
(Fórum no 33, mar/abr 2012)


A notícia vinda a público, confirmando que a Índia testou sua capacidade de portar ogivas nucleares com o lançamento do míssil AGNI, acirrou questões com vizinhos e trouxe, a reboque, a questão da missilística e da nuclearização de alguns Estados. E o(s) possíveis processo(s) para contenção dessas conquistas.

A produção de artefatos espaciais nos países não listados como potências militares, há algum tempo ocupa espaço nas análises político-militares da atualidade, assim como também preocupa a “comunidad desenvolvida” do mundo. Porque, com o espalhamento das tecnologias nuclear e espacial (o número de países listados como fabricantes aeroespaciais mais que dobrou na última década), essa possibilidade deixou de ser remota – como o era – para representar algo factível neste novo milênio, para quase uma dezena de novos pretendentes: Índia, Brasil, Paquistão, Argentina, Coréia do Norte, Taiwan, Iraque e Afeganistão...

O domínio da missilística de grande porte, com qualquer tipo de “carga paga”, dará a esses países, a capacidade de penetrar e romper os sistemas de defesa de vizinhos e atacar alvos em profundidade. Há que ser notado que alguns desses “new-arrivals” estão à beira de conquistar o domínio da grande precisão (controle e guiagem dos artefatos), com cabeças-de-guerra de grande força destrutiva (convencionais ou nucleares), incorporadas aos seus vetores. E, tudo isso, poderá vir a ocorrer em curto espaço de tempo. Se já não está!...

Para a comunidade dos “grandes detentores da tecnologia”, essa hipótese assume uma feição de “ameaça” aos seus interesses já que, em algumas áreas, essa possibilidade gera uma ponderável alteração no “balanço do poder” criado por eles próprios, e preservado no status quo que lhes tem sido conveniente.

Foram as Grandes Potências que cederam aos Estados menos aquinhoados, o acesso ao mundo dos artefatos balísticos e de tecnologia nuclear. E esse acesso foi garantido através de duas formas: transferência de tecnologia voltada para atividades puramente espaciais e científicas e desenvolvimento de tecnologia direcionada para objetivos de interesse militar. Duas conotações aparecem nesse cenário de “concessões tecnológicas”. A primeira provém da ideia de – em transferindo tecnologia – iniciar-se, ao mesmo tempo, um forte programa de comercialização de sistemas, equipamentos, componentes e assessoria técnica. Como os “programas espaciais de gente pobre” se eternizam (o do Brasil já cruzou o seu 50o ano), não fica difícil detectar o peso comercial que pode adquirir essa atividade. A segunda, provém da ganância que os “grandes proprietários” de know-how têm em poder direcionar, limitar e/ou utilizar esses programas terceiromundistas em seus próprios benefícios...

Os programas de transferência de tecnologia puramente espaciais (ciência e tecnologia) estão sempre ancorados nas “aspirações e expectativas” das comunidades científicas subdesenvolvidas, e que se destinam à conquista da “capacidade e competência” para produzir e operacionalizar lançadores para sondagens meteorológicas e/ou atmosféricas. Ou para sensoriamento de dados. Ou mesmo, para romper “barreiras tecnológicas”, cujos resíduos irão se debruçar sobre outros programas.

Por decorrência, é possível imaginar que com essa transferência, alguns países poderão aprimorar bem mais a sua atual capacidade de lançar artefatos, atirar uma carga paga qualquer, a uma determinada distância e em uma determinada direção. E, além disso, prover meios para o aumento da tecnologia missilística-balística desses artefatos de sua propriedade para uso mais amplo.

Para os projetos militares, o processo de transferência teve outra origem: proveio da formação dos blocos regionais de defesa e segurança. Diversos países menores passaram a ser “clientes ou usuários” de tecnologia missilística de ponta. Esse know-how lhes foi transferido via treinamento operacional ou de suporte logístico, como membros desse novo bloco de defesa e com sustentação dos Grandes. Porém, sempre sob supervisão e controle...

Se esses países menores já desenvolveram sua capacidade industrial espacial (caso da Índia e do Brasil), é inevitável aceitar a possibilidade desse know-how vir a se transformar em “estímulo” para uma escalada em busca de nível superior de proficiência. Em um grande número de casos, esses países, não só já desenvolviam metodologia própria, como tentavam a “customização” dos equipamentos importados já existentes no seu patrimônio. São iniciativas “grosseiras”. Mas, às vezes, funcionam...

A “expansão do arsenal missilístico-balístico”, portanto, nada tem de diferente daquilo que aconteceu com o espalhamento de tecnologias de aplicação militar: Ao invés de estar sob “estrito controle”, hoje se encontram ao alcance de uma comunidade amplificadamente maior. Entretanto, algo mais existe naquilo que concerne às opiniões “pró e contra” os programas espaciais do tipo brasileiro e indiano.

Esses programas foram (e ainda o são) desenvolvidos sob inspiração e orquestração dos militares. Além disso, grande parte dos recursos provêm dos orçamentos das Forças Armadas, caracterizando (na visão internacional) “militarização” dos referidos programas. Isso porque há dificuldade de clarificação da linha que fixa os limites entre um programa de interesse “puramente científico” daquele de “aplicação militar”...

No entender mundial (?), cabe restringir os programas espaciais do tipo brasileiro, indiano e semelhantes, já que poderão conduzir à busca da “ocupação de lugar” no restrito Clube das Nações capazes de produzir artefatos não-tripulados e de transportar, pelo menos, (até) 500kg a 300km de distância em direção pré-estabelecida. Assim, em aplicadas restrições, as plantas de fabricação de sistemas de lançamento, sistemas de propulsão, de veículos de reentrada, motores-foguete, sistemas de guiagem, controladores de vetoração de empuxo, sistemas de segurança, espoletagem e disparo de cabeças-de-guerra, sistemas e subsistemas em geral, passarão a não mais ser exportados pelo Clube. Brasil e Índia, etc. inclusos...

A tese é que, estando o país (ou os países) desenvolvendo, com algum sucesso (mesmo que lentamente), programas de enriquecimento de combustível nuclear (caso da Índia, Brasil e outros poucos), e concomitantemente tendo se colocado na linha-de-partida daqueles que produzem e conseguem lançar artefatos balísticos (espaciais) com eficácia, o que lhes falta para dar o “grande salto?”... A quem, então, (não) interessam os programas espaciais terceiromundistas?...

Lauro Ney Menezes - Maj. Brig. Ref.
Piloto de Caça - Turma de 1948

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