A capacidade a adquirir poderia ser brevemente relatada como “as Forças Armadas Brasileiras devem ser capazes de impedir ataques aéreos em média escala, potencialmente feitos por aeronaves inimigas de alta performance, armadas com mísseis BVR, na região amazônica, a fim de impedir a tomada de área territorial brasileira rica em petróleo. As ações contra as forças atacantes devem receber apoio logístico capaz de sustentar o combate por um período de até três meses.”
Esse exemplo fictício de conceituação provê orientações em três dimensões: escala de esforço, tempo e dificuldade de execução (esta última tanto em termos geográficos quanto em intensidade).
Dessa forma, fica, então, definido o problema, sem que seja diretamente apontada a solução. Posteriormente, os especialistas dirão se essa capacidade será preenchida, por exemplo, com a compra de centenas de peças de artilharia de baixa, média e grande altitude; se com satélites ultramodernos, que fazem a defesa aérea empregando armas de energia eletromagnética direta; ou da forma tradicional, com caças operados pela Força Aérea.
Ainda que seja essa a solução apontada, o importante é que ela surja de uma análise que vise ao cumprimento de uma necessidade (atender a uma capacidade), não apenas para substituir os caças que eventualmente não sejam mais capazes de cumprir suas tarefas.
Há alguns anos, o jornalista e escritor britânico Max Hastings publicou um artigo no qual criticava ferozmente a compra dos Eurofighter Typhoon por parte da RAF: “não são mais importantes para a defesa européia do que as carruagens de Boadicéia, e custarão muito mais!”
(2)
Apesar de reconhecer em Hastings um brilhante historiador militar, não chego a concordar com sua assertiva, visto que não se pode considerar que não mais será preciso lutar pela conquista da superioridade aérea. Por esse motivo, creio que os caças ainda serão relevantes no futuro próximo, pois necessitaremos de plataformas que nos dêem a capacidade de, como bem disse Douhet, estabelecer o controle do ar
(3).
No entanto, não precisamos desses novos caças porque aqueles que possuímos ficaram antigos. Se persistirmos nessa linha de raciocínio, vamos adquirir um novo caça porque os F-5 não servem mais, da mesma forma que vamos continuar comprando aeronaves novas porque o Avro, o Bandeirante ou o H-1H ficaram obsoletos
(4),
sem analisar por que e para que precisamos substituí-los.
Fundamental mesmo é estabelecer uma estratégia que se proponha a determinar que capacidades (e não que equipamentos) necessitamos ter, pois definir capacidades é muito mais importante do que definir equipamentos.
Por esse motivo é que sustento que não precisamos de uma nova aeronave para substituir nossos velhos caças. Essa assertiva é, no mínimo, um paralogismo. Podemos até chegar à conclusão de que o substituto do F-2000 e do F-5M será um novo caça, mas não se pode justificar que isso ocorrerá porque nossos vetores ficaram ultrapassados.
Novas máquinas devem servir para atender às capacidades que se deseja construir, e não apenas para substituir equipamentos obsoletos.
Tenente Coronel Aviador Ênio Beal Júnior
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
(1)
Brasil, Ministério da Defesa. Estratégia Nacional de Defesa. Brasília,
DF, 2008. Disponível em: https://www.defesa.gov.br/
eventos_temporarios/2008/estrategia_defesa_nacional.pdf
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(2)
Max Hastings. Routed by the Eurofighter: the pride of Britain’s army.
Disponível em http://www.guardian.co.uk/politics/2004/jun/29/
military.economy
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(3)
Giulio Douhet. O Domínio do Ar (Tradução Escola de Aperfeiçoamento
de Oficiais da Aeronáutica. Belo Horizonte: Itatiaia; Rio de Janeiro: INCAER,
1988)
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(4)
Essas referências foram feitas tão somente para ilustrar o caso, tendo
em vista que são aeronaves que já foram (no caso do Avro) ou brevemente
serão substituíd
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