T. CEL. BERTHIER FIGUEIREDO PRATES
Dentre os vários adjetivos atribuídos ao Cel. Berthier, sem dúvida alguma consta o de vaidoso. Eu mesmo ouvi muitas vezes companheiros dizendo – “mas é muito vaidoso”!
Pode ser, acredito que sim, mas era uma vaidade sadia, ciente de sua liderança entre superiores, pares e principalmente na jovem oficialidade.
Vou reportar-me a um fato ocorrido em meados de 1964 onde, num C-45, eu e o então Ten Belchior, ambos da BAGL, aguardávamos em RJ, na cabeceira da pista 20 proa sul, melhoria de tempo para uma decolagem, destino interior do RG do Sul.
O tempo estava ruim, chuva leve contínua, mais contínua que leve, visibilidade muito baixa e como disse, na espera....
Este C-45 era do Comando do antigo COMTA, em cumprimento de ordem de missão daquele CMT, Brig Grum Moss, possuindo alguns "upgrades" que o diferenciavam dos demais.
Por exemplo, cortinas nas janelas, bandeirinha pintada na porta, tapetes e forração melhorada, duas garrafas térmicas para café e uma tremenda novidade: equipado com dois VHFs e um par de hélices hidramáticas as quais embandeiravam na eventualidade de um monomotor, permitindo que a máquina chegasse ao solo um pouquinho depois que seus assemelhados desprovidos desse fabuloso equipamento.
Sempre a bordo, um verdadeiro cão de fila, o competente mecânico Sargento Vitral, o qual desta vez, não sei porque, foi dispensado.
Ainda mantendo posição, fui surpreendido por um balanço, um tranco, e falei para o também surpreso Belchior “rajada de vento...”
Em seguida, a rajada de vento aumentou e começou a sacudir o manche indicando fortes amplitudes no aileron.
Olhando para a esquerda vi o Ten Cel Berthier à época Cmt do 1o GpAvCa visivelmente ensopado (ele era esta segunda rajada de vento) fazendo sinais “para eu cortar o motor e descer para falar com ele”.
Isso feito, apontou um rasgo no leme de direção, esquerdo, deriva vertical, provocado pela asa de seu avião, um Fokker T-22 o qual havia perdido o freio ou coisa parecida e nos abalroou.
Olhando a avaria dei meu parecer baseado talvez na vontade de sair daquela chuva “não é nada, dá para voar”, o qual não teve a acolhida esperada.
Disse o Cel – Não vai voar coisa nenhuma, vamos para o QG resolver esse problema. Eu vou te seguir, OK?
Fomos os dois, com os aviões para o hangar do QG-3 – atual COMAR III –, onde não fiz absolutamente nada.
O Cel encarregou-se de tudo inclusive supervisionando a troca da superfície danificada.
Após um tempo razoável, novo PLN, nos despedimos e o voo de experiência foi sem problemas efetuado em rota.
Pergunto então, que vaidade é essa, de um Tenente-Coronel, Comandante do 1o Gp de Caça, que sai de seu avião (poderia mandar o novinho que estava com ele, seria o Blower?), anda na chuva, faz um Beechcraft fita-azul de um Oficial General voltar para o hangar, e assume toda uma responsabilidade?
A vaidade desse senhor é sadia, é exemplo de procedimento, coisa de liderança efetiva e carismática.
Comentando esse fato com o velho Trompa, ele me disse:
“Ajaques, escreve Ajaques”, e aí está, para conhecimento da nova geração mais uma estória do nosso Berthier.
Ajax Augusto Mendes Corrêa - Cel. Av. Ref.
Piloto de Caça – Turma de 1957
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