BERTHIER FIGUEIREDO PRATES, 1964 D.C.

Ten.Cel.Av. Berthier

Existem muitos BERTHIER.
Eu não conheci todos.
O de 1946, eu não conheci.
Integrante da primeira turma de pilotos de caça formada no Brasil.
Na Base Aérea de Santa Cruz.
No 1o Gp.Av.Ca., recém chegado da Itália.
Sou um cara sortudo.
Meus quatro primeiros comandantes de caça eram daquela turma.
Berthier, Antonio Henrique, Binzão e Silas.

Silas.
Ten. Cel. Av. Silas.
Comandante do 1o/14o G.Av. 1964.
Recém assumira.
A notícia.
Berthier, em um combate, com “Pintinho”, 1 contra 1, entrara em um grande “algodão” e desaparecera.

Silas pede que uma aeronave o leve a Santa Cruz.
Fui escalado em um TF-7 (bi-place).
Lhe ofereço a nacele dianteira.
– “Leva Trompowsky, eu não tenho cabeça para pilotar.”

Eram muito amigos. Eu dou esse testemunho.
Após o pouso, a notícia.
Encontraram o local onde ele batera.
Aquelas montanhas, a Oeste da Base Aérea de Santa Cruz.
Proa de São Paulo.
Berthier morrera.
E com ele, uma lenda.
Ele era.
Mas ele tinha um segredo, muito simples, para tornar-se esse mito.
Ele era que nem nós, simples humanos.
Bonito?
Nós não somos. Mas ele era. (Na realidade, ele não era. Assim o chamavam os invejosos, medíocres).

– “Berthier, o belo...!”

Já que lhe chamavam, ele desfilava com todo o seu charme e elegância.
Estatura mediana, moreno, o cabelo liso e curto, cortado à “Rodolfo Valentino”.
“Charmant, parleur”, inteligente, observador arguto, líder, pilotaço, piloto de caça.

Jovem caçador, você não o conheceu.
Mas ele era tudo isso. Ou mais.
Eu agora vou levá-lo para os anos cinqüenta.

Para o início do expediente.
Chamada dos pilotos.
08:00h.
Em uma Unidade de Caça. 08:10h. Berthier levanta-se.
Ninguém se fardava melhor do que ele.
Os vincos nas mangas compridas (não havia o uniforme de manga curta), na calça (comentava-se “à boca pequena”, que essa calça só era usada para o início do expediente...!).

– “Não serão permitidos vôos à baixa altura/rasantes, na pista do Aeródromo”.
– “Estamos entendidos?”
– “Alguma dúvida?”
Ninguém tinha.

Uma semana, se tanto, Berthier, no regresso de uma 5F (quatro aviões), comandava o “ataque nº 1”, e “estreifava” sobre os aeródromos de Santa Cruz, Gravataí (esse era o nome antigo da Base que você conhece hoje como Canoas) e Fortaleza.
Entenderam agora?

Ele era que nem nós.
Peladeiro, piloto, pilotaço, piloto de caça.
Eu tenho duas estórias com Berthier, que guardo com muito carinho.
Existem muitas outras. Dez, vinte, trinta.
Ele foi o meu primeiro Comandante de Caça.

Em meu primeiro vôo na caça, ele era o instrutor.
No primeiro “dois aviões” (elemento), ele era o líder.
Você deve estar curioso, jovem piloto de caça.
– “Como foi o briefing?”.
– “Como ele transmitia sua experiência?”.
Dez, jovem. Essa é a nota. Dez!

Eu vou lhes contar a primeira estória.

Apresentação dos Aspirantes Aviadores, no curso de Caça. 1o /4o G.Av. Base Aérea de Fortaleza.
Os oficiais instrutores nas cadeiras ao fundo e os estagiários do Curso de Caça à frente.
Os estagiários são chamados, um a um para serem “apresentados” aos instrutores.

– “Aspirante TAULOIS”.
Me levanto.
Esse era o meu nome, desde que eu entrara para a Escola da Aeronáutica.
O último nome e as siglas: TAULOIS, I.V.T.D.
Berthier interrompe a apresentação, e diz:
– “Troca o nome. O nome dele será TROMPOWSKY”.
Berthier me dera um nome.
Com ele, eu voei umas três mil horas de caça.
E fiz todas as “merdas” possíveis.
E comandei duas Unidades de Caça.

A segunda estória, eu e seu filho, fomos “figurantes” de uma última homenagem a essa lenda.

Com um detalhe importante.
Mil, mil e trezentos pilotos de caça, responderiam da mesma maneira: – “Berthier”.

Trinta anos após a sua morte, estaciono um PITZ bi-plano no apertado pátio do Aeroclube de Jundiaí.
Estávamos formando os primeiros pilotos civis em vôos acrobáticos na ala.
Corto o motor e abro o “canopy”.
Um piloto, com seu macacão de vôo, aproxima-se e diz:

– “Cel. Trompowsky, eu sou filho do melhor piloto de caça do Brasil”.
Uma pequena pausa, e a punhalada final:
– “Qual é o nome de meu pai, Coronel?”

Minha cabeça a mil. Tento ganhar algum tempo.
Me liberto do pára-quedas. A cabine do PITS é apertada.
Olho com mais atenção para suas feições.
Tento identificar, comparar.
Nada.
Não se parecia com ninguém.

Ele sorri e diz:

– “Não sou parecido com meu pai. Saí à minha mãe”.

Alguns amigos seus aproximam-se, curiosos.
Agora havia platéia.
Eu conhecia os filhos de Antônio Henrique e Frota.
Não conhecia os de “Binzão” e Bezerra.
Magalhães Motta não tivera filhos.
Os de Rui e Meirinha, com certeza seriam mais velhos.

Era pegar ou largar.
Dou uma respirada.
Olho bem nos seus olhos e digo:

– “BERTHIER”.

Bingo!
Na mosca!


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