Ten.Cel.Av. BERTHIER FIGUEIREDO PRATES

Conheci o "Rei sol" na minha época de "bicho(1) nojento", da antiga Escola de Aeronáutica dos Afonsos. Era um Veterano "boa praça", cujo estilo não era dar trote. Às vezes, uma boa "gozada" ... mordaz como sempre. Berthier pertencia à Turma de Aspirantes de 1945, conhecida como sendo composta de um bom número de "bracinhos" (gíria aviatória da época significando "bom de vôo"), dos quais se destacavam o próprio... Berthier

Ousado, autoconfiante, "remplis de soi même"(2). Arrogante, "mascarado" (para alguns), era uma figura marcante. E invejado, "per se"(3)...

Por vezes, encontrava-o em Copacabana, no "point"(4) da juventude da época, acompanhado de Seidl, Binzão e colegas. De uma feita, já em final de meu curso e preparado para escolher o destino para servir (à época, uma escolha do Aspirante), fui interceptado por Berthier a fim de conhecer minha escolha: nem me permitiu responder...

"Vai para Santa Cruz para ser Piloto de Caça!" Surpreso, recebi um completo briefing sobre a Caça, seus mitos e seus prazeres. Decidi-me ali. Na Diretoria do Pessoal (DP), deixei minha opção: Base Aérea de Santa Cruz - 1oGrupo de Caça. Como me fora sugerido pelo estimado Veterano. Ele, portanto, foi o responsável pela minha (bendita) escolha.

Apresentado ao 1o Grupo de Caça (ESPC)(5), em janeiro de 1948, encontrei Berthier servindo no 1o Esquadrão, Instrutor Operacional da Turma de 1946. Nesta altura, muito mais maduro: Piloto de Caça formado, voando o P-47 na ala dos Veteranos de Guerra, era o protótipo do aviador guerreiro, pronto para cumprir missão...

Ao concluir meu Curso de Caça transferido para o 1o Esquadrão, meu destino foi quase automático: a Esquadrilha d'Ouros do 1o Esquadrão, então Comandando pelo Veterano Maj.Av. Pessoa Ramos. A d'Ouros tinha Berthier como Comandante e Líder, número três e Líder de Elemento, Antonio Henrique. Era a melhor!...

"Faça o que eu digo e não faça o que eu faço", era o lema de Berthier. Voar na sua ala era um aprendizado permanente: decisão, coragem, risco calculado, maestria. Amizade, camaradagem, espírito de corpo eram a tônica do líder d'Ouros.

Exigente com a disciplina na Esquadrilha, era um Líder que quando o vôo era na "madrugada" se permitia ir ao Cassino dos Oficiais, às 22 horas, bater palmas e conclamar: d'Ouros recolher! "E todos o faziam... sem mugir nem tugir! Também era conhecido pelas colocações nos briefings das grandes missões: "é show ou é demonstração? Se for show, saiam da frente. Se for demonstração, cumpra-se a NPA!"(6)...

Passei anos voando na sua ala: casamento de impedância(7) completo: um "lia a mente do outro" e o nosso elemento era indissolúvel. Assim, a d'Ouros era inigualável. Mais tarde, já liderando a d'Ouros que herdei, com Rosa Filho, Santos (Mico) e Bion, tentei reviver meu aprendizado tido com ele.

Berthier comandando a "Sorbonne"(8) em Fortaleza, introduziu a nova metodologia do vôo por instrumentos para aeronaves a jato. Tornara-se Instrutor de VI(9), em curso extremamente bem sucedido na IPIS (Instrument Pilots Instructor School - USAF). O VI na Caça mudou de figura e é a partir daqui que se passou a voar por atitude (1 barra; 1/2 barra; 1/4 de barra...). Não só a Caça, mas toda a FAB.

Comandando o 1o Grupo de Aviação de Caça tinha visivelmente atingido o nirvana. Voltou aos seus tempos de líder d'Ouros, porém, mais arrojado. Parecia ser seu clímax. Seus comandados, à época, testemunham esse seu estado de graça. Desafiador, como sempre, não deixou passar a oportunidade de "torcer os bigodes"(10) com Paulo Pinto, naquela tarde fatídica.

Recordo-me que ao regressar de uma missão de instrução no 1o/4o G.Av., fui aturdido com a notícia da perda de meu Comandante de Esquadrilha, e só um fato conteve minhas lágrimas e conseguiu me confortar(?):

O Líder d'Ouros nos deixou fazendo o que melhor fazia e que mais lhe encantava fazer: voar Caça, desafiar, combater...

Dediquei-lhe uma praça com uma placa, sob o cajueiro de sua estimação no pátio do 1o/4o G.Av., em Fortaleza.

BERTHIER foi um Líder, um Mestre e, hoje, é um nos nossos inesquecíveis Mitos...
"Venha no razante, Chefe: Subiremos juntos!"

Maj.Brig.R.R. Lauro Ney Menezes
Piloto de Caça - Turma de 1948

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:

(1) - "bicho" = aluno do primeiro ano, novato;
(2) - "remplis de soi même" = "cheio de sí mesmo", confiante;
(3) - "per se" = Pela própria figura, por ser ele mesmo;
(4) - "Point" = local de "azaração" ou "paquera";
(5) - ESPC = Estágio de Seleção de Pilotos de Caça;
(6) - NPA = Norma Padrão de Ação ou "regras vigentes";
(7) - casamento de impedância = termo tirado da eletrônica e que no caso significa: "perfeito entrosamento";
(8) - "Sorbonne" = nome de uma das melhores universidades do mundo. O 1o/4o Grupo de Aviação é a "escola" de Pilotos de Caça e considerado a "Universidade da Caça";
(9) - VI = Vôo por Instrumentos
(10) - "torcer os bigodes" = Entar em combate aéreo com...


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