NERO MOURA

"Quem era aquele jovem Tenente Coronel Aviador que, nos idos de 40, componente de uma infantil recém-criada Aeronáutica, havia conduzido homens em armas para o cumprimento de missões de guerra e, lhes oferecendo em troca - às vezes - o sacrifício da própria vida? Nero Moura no P-47   10k

Que se tenha notícia, nenhum dos "pupilos do pós-guerra" ou Veteranos do 1o Grupo de Caça, ousou ou tentou descrever mais profundamente quem foi e quanto NERO MOURA marcou, com seu carisma e personalidade, sua (auto definida) verdadeira Guerra:

"a formação das novas gerações de Pilotos de Caça" e a "criação do Espírito de Caça!"

Para nós, das turmas mais modernas de Pilotos de Caça NERO MOURA, antes de mais nada, era um líder e aviador.

E assim o foi, durante toda sua carreira. Um aviador e um líder. Sua galante primeira imagem foi imortalizada, para as gerações da então Escola da Aeronáutica, em 1945, quando deixava a nacele de sua máquina de guerra P-47, pousava no Campo dos Afonsos, para apresentar-se as autoridades, após a MISSÃO CUMPRIDA. Ele, e seus "barões em armas"...

Oficial da Arma de Aviação do Exército, Combatente na Revolução de 1922, Curso de Aplicação na França, Piloto do Presidente da República, Comandante do 1o Grupo de Caça na Itália, Ministro da Aeronáutica, Patrono da Aviação de Caça Brasileira: suas biografia e história já foram narradas e registradas de forma irretocável, por aqueles que, afortunadamente, conviveram com essa especial figura humana e de aviador, NERO MOURA, com seus comandados, rompeu a barreira do habitual na "carrière" de antanho, implantando a "era da profissionalização".

Figura elegante e simpática de homem, de agradável compleição, sorriso aberto e amigável, resplandecia respeitabilidade e companheirismo. Transpirava simplicidade, afetividade, bonomia(1) a auto confiança.

O Corpo de Cadetes do Ar, em 1o uniforme, armado e com baionetas caladas, silenciosa e marcialmente, saudou seu HERÓI. Quem viria se tornar, em breve, o paradigma para a nova conjugação dos verbos SERVIR e LIDERAR, na recém criada AERONÁUTICA.

Em sua carreira exerceu altos cargos, sem permitir que seus dotes pessoais fossem contaminados pelas mazelas das funções públicas. Servir com NERO MOURA, em qualquer circunstância, era viver momentos de respeitosa alegria. Nunca o vimos com expressão de tristeza ou de rancor, ou tomado pela euforia proveniente da função exercida; ou em feroz crítica aos seus opositores. Tranqüilidade e equilíbrio eram os componentes do seu bio-ritmo.

Nunca invocou sua posição de Comandante ou Ministro, para receber benesses ou honrarias. O "exemplo" era seu disciplinamento silencioso.

Sua presença induzia respeito natural, em que pese a informalidade que permitia aos freqüentadores do Albergo Nettuno (Pisa) ou na intimidade do Posto 6 (Av. Atlântica, Rio). Avesso às luzes traiçoeiras da mídia, sempre que questionado intitulava-se um "cumpridor de missão; um homem normal"...

Acompanhei-o, com alguma intimidade, na instalação da primeira Exposição Comemorativa do Término da 2a Guerra Mundial, transportando o Museu da Caça, do 1o Grupo de Caça em Santa Cruz para o Teatro Municipal, no Rio. Em sua visita ao Museu, submetido por NERO MOURA a um questionário verbal sobre meus conhecimentos da História do Grupo na Guerra recebi, como prêmio, um largo sorriso e uma frase de elogiosa satisfação: "Tu tá bom, guri!".

Mais tarde, acompanhei-o em uma visita à Europa. Por um longo e inesquecível período, vivi e convivi ao lado daquela figura do HERÓI da minha mocidade e do HOMEM da minha madureza. Fizemos uma terna e sólida amizade, que jamais se esvaiu.

Às vezes, sinto sua falta, sua presença...

Às segundas-feiras, e em vários momentos desse compromisso sagrado, tive o privilégio de reencontrá-lo para "fazer companhia e bater papo"... Cativante era ouvi-lo falar, emoldurado pelos troféus de Guerra e pela coleção de "whiskies" (especialmente o misterioso GLEN MORANGIE...)

O seu famoso "picadinho Jesus tá chamando" de 6 de outubro - iniciado com a presença de uns poucos eleitos (formalmente convidados) - naturalmente veio a ser um caloroso encontro de amigos. Mais tarde, se transformou em reunião de homens do ar incorporou famosos "cantores" de nossas "canções de guerra".

E outras... O Chefe NERO, alegre e sorridente, instalado na sua velha poltrona de couro, a tudo assistia, incentivando. E saboreando seu "puro malte".

A cada contato, se reafirmava uma amizade, do respeito e admiração.

NERO MOURA, na curta visão de um Estagiário da Turma de 1947 e Piloto de Caça forjado pelos Veteranos do 1º Grupo de Caça, nos anos de 1948-1950, nosso Eterno Comandante era: Nero Moura com 'papo-amarelo' - 9k

NERO, do sotaque gaúcho jamais perdido;
NERO, aviador da Revolução de 22, que calçava tênis para voar;
NERO, aviador com Curso de Tática de Combates, na França;
NERO, piloto "quente" do Presidente da República;
NERO, Comandante do galante 1o Grupo de Caça, na Itália;
NERO, Comandante da histórica Base Aérea de Santa Cruz;
NERO, o fiel;
NERO, o inovador Ministro da Aeronáutica;
NERO, do precioso "papo" das segundas-feiras;
NERO, da tosse nervosa e espalhafatosa;
NERO, o respeitado;
NERO, o aviador;
NERO, o afetuoso amigo;
NERO, nosso LÍDER, nosso MESTRE - e o nosso MITO!".

Maj.Brig. R/R Lauro Ney Menezes
Piloto de Caça - Turma 1948

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:

(1) bonomia = qualidade de quem é bom, simples, crédulo, fleumático.


[RETORNAR AO ÍNDICE DOS "MITOS"]